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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Reflexões sobre: Ciência, Método, Geografia e Sociedade


Ciência, Método, Geografia e Sociedade


Uma leitura científica necessita de um objeto de análise para se concretizar, tendo na relação sujeito e objeto o início de um discurso científico. O objeto de análise pode ser compreendido como “fenômeno”, mas ele “em si” não é científico, somente sua leitura pode torná-lo.
Os fenômenos da realidade são a materialização das relações sociais, sendo efetivada praticamente e lida de uma maneira subjetiva, mas não podemos jamais desconsiderar sua dimensão objetiva. Afirma-se que existe uma objetividade na realidade, porque além de toda “ação ter uma finalidade”, vivemos numa sociedade baseada por princípios e preceitos de uma estrutura econômica e política capitalista, que é determinante na formatação de um modo de vida dos moradores.
Devemos sair do fenômeno e ir para a razão ou sua essência, captando seu movimento, até porque aparência não é essência. Possui uma significativa importância a “aparência científica” expressa nos fenômenos, sendo ponto de partida nas análises. Através do método dialético visualizaremos sua contradição, os aspectos analíticos, além das relações sociais e produtivas.
Existem vários métodos de compreensão da realidade, tais como o funcionalista, o positivista na teoria geral dos sistemas, o holista, o dialético, etc.
Entretanto, podemos partir do fenômeno e tecer investigações científicas utilizando-se do método dialético, sempre integrado à teoria e ao contexto do materialismo histórico.
A realidade e a sociedade possuem determinações, relações políticas e sociais que estão situadas dentro de um modo de produção. As relações produtivas são determinantes na constituição social e da geografia das sociedades, segundo MARX e ENGELS (1986, p.13):
Na produção social da sua existência, os homens estabeleceram relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a um grau de desenvolvimento determinado das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sob a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem formas de consciência social determinadas. O modo de produção da vida material, condiciona o processo de vida social, político e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que lhes determina o ser; é, inversamente, o ser social que lhes determina a consciência. [1]

Portanto modo de produção seria a:
(...) unicidade das forças produtivas objetivas e subjetivas no processo de produção total e concreto de uma determinada época social. O modo de produção é a maneira como os homens trabalhando socialmente ganham a sua subsistência. [2].

O Modo de Produção determinará as dinâmicas sociais, ou seja, a dinâmica da produção histórica da sociedade que determinará a dinâmica social. Segundo MOREIRA (2004-a, p.66-67), o Modo de Produção Capitalista é tão determinante socialmente porque “tem na sua base a separação entre os meios de produção e a força de trabalho”, separando a população em duas classes sociais: a burguesia (detentora dos meios de produção, dos meios de subsistência e das riquezas produzidas na sociedade) e o proletariado (detentora de sua força de trabalho, que terá de ser vendido por um salário para poder comprar os meios de subsistência).
O modo de produção desenvolve por existência um modo de vida para os integrantes da sociedade ou moradores das cidades. Além de ser um dos principais determinantes de suas vidas, é uma expressão cultural que aborda o subjetivo do indivíduo (dando sentido de vida nos fatos do cotidiano).
As reflexões sobre o modo de vida contribuem significativamente no entendimento da sociedade capitalista, porque podemos perceber o pensamento e organizações políticas nas específicas épocas históricas. Expressando o modo de vida e concomitantemente o modo de produção das sociedades, a realidade é compreendido a partir da cultura expressa pelas pessoas ou pelo que se quer ensinar nas escolas.
Os fenômenos na sua essência são culturais e sociais, expressando-se inclusive na arte, que é um objeto de análise científica pouco explorada, principalmente pela ciência geográfica. A produção artística é compreendida como um corpo documental instigante, que recupera a expressão de sentimentos e temáticas cotidianas. Através da cultura dos povos, visualizamos variadas percepções que demonstram os comportamentos, as sensibilidades, a memória, a identidade e as territorialidades de um povo segmentado.
A cultura de um povo (expresso na arte e na ciência) é entendida como uma manifestação cultural de um modo de vida. Podemos nos utilizar de variados fenômenos culturais para falar de qualquer assunto relacionado às sociedades.
A realidade se expressa em fenômenos que possuem uma dimensão aparente que pode ser desnudada pela ciência e pela arte. Não podemos discriminar a leitura artística em detrimento da científica, como está especificado na passagem de MOREIRA (2004-c, p.189) a seguir:
Ao olhar uma paisagem, por exemplo, o que de imediato vem à nossa percepção é a pluralidade cultural e a individualidade do mundo percebido. Todavia, a transposição do supra-sensível faz-nos ultrapassar a imediatez do múltiplo individual com que este se apresenta, colocando-nos diante dele como uma totalidade estruturalmente articulada e integrada. O que acontece é que a Ciência faz este movimento de totalização pela via do conceito e a arte pelo caminho mais livre dos símbolos e da significação, enfatizando o sentido e o significado. Nem por isto, entretanto, um expressa com mais correção à captação do real que a outra.

Esta passagem reforça a importância de utilizarmos a arte em nossas análises da realidade, sem querer desqualificar ou reduzir sua contribuição para o desvendamento do real. Verifica-se que existe uma linha muito tênue que pode diferenciar a arte da ciência.
Todas as produções culturais de uma sociedade expressam o modo de vida desta sociedade que está inserida historicamente e geograficamente. Elas nos possibilitam desvendar as contradições do modo de produção desta sociedade, sendo este modo de produção o determinante na vida das pessoas.
Podemos conceber a aparência como o “início do conhecimento” e uma manifestação concreta da essência ou do conteúdo das coisas. Pela aparência não ser essência, a aparência materializa-se tanto nas leituras científicas formais, assim como na paisagem, nos objetos e fenômenos da realidade. Concordando com PEREIRA (2003, p.10), aparência é a: “(...) manifestação concreta da essência, assim como a forma o é do conteúdo”.
Neste sentido, segundo PEREIRA (2003, p.11), verifica-se que: “(...) temos de entender o conteúdo para podermos entender a forma e também admitir que ela, uma vez constituída, influencia tanto na própria forma, quanto no conteúdo”.
Além de ser a “desvendadora” da essência das coisas, concebe-se a Ciência como qualquer modo de interpretação e representação do real. Esta foi criada como necessidade social, ou seja, para “estar ciente” da realidade concreta. Entretanto ela jamais pode ser compreendida como uma “realidade absoluta e inquestionável”, mas sendo uma versão ou leitura do real em movimento.
Toda Ciência trabalha com Ordenações Lógicas, possuindo seus Códigos, ou seja, toda análise científica é uma forma diferente de se compreender a realidade. Todas as pessoas constroem um discurso sobre o mundo e a Ciência Geográfica é um discurso sobre o mundo, possuindo uma tradição discursiva que tem de ser desvelada.
A realidade possui um “fundamento geográfico”, pois para que as coisas aconteçam, elas têm de ocorrer em lugares. MARTINS (2009, p.16) diz que:
a geografia ou o geográfico, enquanto fundamento, é algo que se estabelece a partir da relação sociedade/natureza. Ou seja, tanto no sujeito como no objeto, a relação sociedade natureza se traduz numa ordem espaço-temporal dos elementos que resultam da relação.

Neste sentido, parafraseando Herder, podemos afirmar que a história (seja das sociedades ou da natureza) é geografia em pensamento. Nesta toada, MARTINS (2009, p.15) diz que a geografia dos lugares além de ser um fundamento da realidade, é uma: ”(...) determinação que se mostra como fenômeno, que mediante diferentes teorias será entendido de formas distintas”. Portanto, a realidade é uma totalidade, podemos ler um fenômeno da realidade de diversas formas, cada análise científica é uma versão possível da realidade ou do geográfico[3].
A geografia dos lugares ou o espaço é um dado da realidade e a ciência geográfica não pode querer ter o monopólio científico desta categoria da realidade. MARTINS (2009, p.24) diz que o espaço (ou a geografia dos lugares) “nos chega na forma de território, região, área, paisagem, etc”.
Fazer uma análise utilizando-se da Ciência Geográfica significa compreender a lógica de ordenação dos lugares, ou seja, entender as relações de força constitutivas de nossa sociedade capitalista partindo dos fenômenos em sua dimensão territorial.
A Ciência Geográfica permite que os indivíduos tenham uma “Consciência Geográfica” do mundo, ou seja, compreender a ordenação territorial das coisas, entendendo como elas se localizam no território (ou na Geografia dos lugares), levando à compreensão do sujeito e de outros locais. Neste sentido, MARTINS (2009, p.17) diz que: “a consciência geográfica passa por entender esta determinação geográfica da existência”.
Não necessariamente o reconhecimento da topologia é fazer geografia, pois este reconhecimento tem de ser realizado geograficamente, sob as ordens lógicas da Ciência Geográfica. Fazemos um discurso geográfico para falar das coisas, utilizando-se de categorias e conceitos próprios da Ciência Geográfica.
Além desta específica importância do espaço na realidade, devemos ressaltar que os fenômenos possuem uma dimensão territorial que contribui nas análises científicas e é a expressão do fundamento metodológico da ciência geográfica.
Os fenômenos da realidade possuem uma geograficidade, cuja importância pode ser mais bem compreendida na passagem de MOREIRA (2004-c, p. 193) a seguir:
(...) todo ente para ser geográfico tem que estar localizado, donde a geograficidade começar na localização no espaço. A localização espacial é essencial e a paisagem um seu pressuposto. Todavia o estar-sozinho não constitui um mundo. É preciso então que a localização se defina como uma distribuição. Isto porque mais que um sistema de localizações, a distribuição é a própria inserção do estar-no-mundo do ente. É coabitação. Só quando a coabitação se estabelece, só então a existência se faz presença. E o mundo então se forma. (...) É com a distribuição que a relação entre os entes aparece, o ente se vendo num todo e seu sentido se faz presente. Esta a-presentação/presenticidade do ente na distribuição é o que torna a localização um elo, um estar-no-alguma-coisa do ente, mundo, o espaço virando espacialidade.

O sistema capitalista de produção proporciona uma articulação e padronização de modos de vida, pessoas e também de lugares em uma rede produtiva que possui uma dimensão geográfica. Conceber a relação realizada com os lugares por onde passou, faz com que o espaço esteja subsumido à existência dos indivíduos, demonstrando que os usos (formas e funções) também definem o conteúdo [4].
Dentre esta constatação, verifica-se que os lugares são visualizados através dos homens e que o homem só o é por ser o “homem-no-mundo”. Longe de realizar leituras fenomenológicas desprendidas da totalidade social e produtiva, entende-se que, para as coisas acontecerem, estas tem de acontecer em lugares, transformando as coisas também em lugares. Esta passagem de MOREIRA (2004-c, p.187) é bem significativa:
A relação entre Geografia, História e Letras não é só possível, como de fato existe. E o que embasa esta relação é a categoria do espaço.
Normalmente se diz que para entendermos uma obra precisamos contextualizá-la no tempo. Mas não se fala em inseri-la no contexto do espaço. Habitualmente, o espaço fica abstraído da contextualização de uma obra. E, no entanto, a contextualização do tempo só é possível quando a contextualidade no espaço fica estabelecida. Porque não existe tempo fora do espaço, e espaço fora do tempo, uma vez que o real é espaço-temporal.
Não há romance que possa falar da problemática humana – e até prova em contrário a problemática humana é o tema tanto da Literatura como da História e da Geografia –, fora da sua contextualidade espaço temporal.

Esta instigante passagem ressalta a validade da relação existente entre arte e geografia, mas também demonstra a importância de se ter uma perspectiva territorial das coisas, formando algo compreendido como um “tempo espacial” ou um “materialismo histórico-geográfico dialético” como sistema filosófico. Tais afirmações não buscam realizar um “determinismo geográfico”, ou estar tentando impor a leitura geográfica para outras linguagens ou mesmo conceber a realidade como inata.
Além de compreender que novas perspectivas analíticas e científicas possam estar sendo disponibilizadas, reforça-se o entendimento de que existem determinações geográficas na realidade e uma objetividade realizada desigualmente, sendo de suma importância para a compreensão do real.


[1] Esta reflexão está presente originalmente em Marx, Karl. Prefácio à “Contribuição para a Crítica da Economia Política”, pp 13-14, Dietz Verlag, Berlin, 1951.
[2] AGB-SP, Seleção de Textos sobre Karl A. Wittfogel (teoria e método) n° 20, “As Causas Naturais da História Econômica”, 1992, pág. 78, citando “A Miséria da Filosofia” de Karl Marx, pág. 91, “O Capital” I pág. 48, nota.
[3] PEREIRA (2003, p.12) disse que: “quando se observa a realidade de forma disciplinar, ou seja, a partir dos diversos ramos em que o conhecimento científico se dividiu, devemos ter claro que a fragmentação é produto do nosso olhar e não da própria realidade”.
[4] Para estudar a respeito, ver discussão de “inércia dinâmica” de Milton SANTOS em Por uma Geografia Nova (1978). Especialmente na Segunda Parte e no Capítulo 13.



BIBLIOGRAFIA
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