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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Geografia das Revoluções Industriais, do Capitalismo e do Estado-burguês

repasso texto que eu fiz.
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Wladimir Jansen Ferreira

A Burguesia queria possuir poder político no modo de produção feudal, fato que era privilégio de outras classes sociais (nobreza e o clero). Era necessário que a burguesia acumulasse “capital mercantil” (até porque eram comerciantes) para que pudesse obter as condições materiais para as mudanças na sociedade e se tornasse, enfim, hegemônica socialmente.
A acumulação de “capital mercantil” acontecerá significativamente durante a “expansão comercial e marítima”, também conhecida como o período das Grandes Navegações (ocorrida aproximadamente entre séculos XI e XVIII). Esta acumulação de “capital mercantil” também ocorria nos comércios locais, que sofrerá uma revolução com a criação das primeiras Indústrias em meados do século XVIII.
A criação das Indústrias será decisiva para a burguesia, pois criará as condições materiais para realizar as mudanças estruturais na sociedade. Até então, as formas de produção utilizadas para a burguesia vender em seus comércios eram insuficientes. O Artesanato não atendia aos interesses da burguesia porque os preços dos produtos eram altos, pela pequena produção (menos produtos em um intervalo de tempo grande). Este tipo de produção também era caracterizado pela ausência de divisão do trabalho, pelo trabalho manual e pelos instrumentos de trabalho simples que pertenciam ao próprio trabalhador.
Pela pouca produção, a burguesia achava o Artesanato ruim, não sendo viável para seus interesses econômicos e políticos. Neste sentido, esta criará a Manufatura, que significou um aumento da produção em um intervalo menor de tempo. As características da produção na Manufatura foram a introdução de máquinas simples e manuais, uma pequena divisão de trabalho, além de um aumento da produção.
No entanto, a burguesia queria possuir mais produtos para vender no seu comércio, fato este que a faria acumular mais capital mercantil. Isto ocorrerá somente com a criação da Indústria em meados do século XVIII.
Com a criação da Indústria, em meados de 1750-80, teremos a “Primeira Revolução Industrial” e não será à toa que a “Revolução Francesa” (que significou a derrocada do feudalismo e o início do capitalismo) ocorrerá depois desta em 1789. O surgimento da primeira Indústria será na cidade de Manchester (localizada na Inglaterra) e em um primeiro momento se espalhará para Bélgica, França e EUA e em um segundo momento para a Alemanha, Itália e Japão. A primeira indústria que surgiu foi uma “têxtil”, só ocorrendo porque a Inglaterra tinha uma vasta plantação de algodão na suas colônias (principalmente nos EUA). Aliás, a Indústria só poderia surgir na Inglaterra, pois ela tinha as condições materiais, tais como matéria-prima (carvão mineral, etc), colônias, grande força de trabalho, burguesia desenvolvida, máquinas à vapor, cientistas como Isaac Newton (o “pai da física”, mecânica, maquinas), etc. 
Segundo MOREIRA (1995), o período daPrimeira Revolução Industrial” ocorreria entre 1780 à 1830, destacando-se as indústrias têxteis e siderúrgicas, o transporte através de ferrovias e navegação marítima, máquinas movidas pelo vapor do carvão mineral e provocando inicialmente um intenso deslocamento da população rural para as cidades (criando enormes concentrações urbanas).
Segundo VITA (1989), as primeiras fases da Revolução Industrial foram marcadas por uma enorme exploração, descritas na literatura por romancistas do século XIX como Charles Dickens (e em filmes como “Daens – um grito de justiça” de 1993). Homens, mulheres e crianças eram confinados em fábricas, minas e oficinas durante jornadas de trabalho de até 12 e 14 horas, em deploráveis condições sanitárias e de trabalho. Tendo um cortiço como moradia, os operários ficavam submetidos a jornadas de trabalho enormes, que chegavam até à 80 horas por semana. O salário era medíocre (em torno de 2,5 vezes o nível de subsistência) e tanto mulheres como crianças trabalhavam recebendo um salário ainda menor.
A produção será agora em larga escala e dividida em várias etapas, fato que distanciaria cada vez mais o trabalhador do produto final, já que cada grupo de trabalhadores passava a dominar apenas uma etapa da produção, apesar de sua produtividade ficar maior. Com a Indústria teremos a chamada “alienação no trabalho” e a instituição de uma “jornada de trabalho”, sendo esta possível com a dissociação do trabalhador de seus meios de produção.
Desde a criação das primeiras Indústrias no mundo verifica-se que o Estado (agora vivente sob o modo de produção Capitalista) preocupava-se em colocar algum tipo de ordenamento espacial para a melhor realização das relações capitalistas. Para que o capitalismo ocorra na sociedade, é necessário que o espaço ou a geografia dos lugares estejam adaptados para as necessidades produtivas da sociedade capitalista. O capitalismo vai transformando os espaços públicos como uma extensão do espaço da fábrica.
Apesar do Liberalismo Clássico (depois o Neoliberalismo) se opor a autoridade do Estado essencialmente nas leis que determinam o que deva ser produzido, o Capitalismo utiliza-se do Estado nos momentos de crise econômica e no seu poder coercitivo[1]. Aparentemente a “filosofia liberal” entraria em contradição com a existência do Estado e o seu papel absoluto e organizador, mas não é bem assim como se parece. HUNT & SHERMAN (1977, p. 60) disseram que:
(...) um dos princípios do liberalismo clássico era que os homens (sobretudo os homens de negócio) deveriam dispor de liberdade para dar vazão a seus impulsos egoístas, o que implicava a supressão dos mecanismos de controle e coerção impostos pela sociedade, exceto os dispensáveis.
Portanto “existem os dispensáveis”, coisas que o Estado nunca deixará de buscar organizar. Neste sentido, os autores HUNT & SHERMAN (1977, p. 67) disseram que a coerção estatal é essencial à própria existência do capitalismo, pois:
(...) Atribuir ao governo a função de proteger as relações de propriedade significava atribuir a missão de proteger a fonte de onde emanava o poder que fazia dos capitalistas a classe política e economicamente dominante.
A função de zelar pela execução dos contratos era também essencial para o bom funcionamento do capitalismo. (...) Em vista disso a execução dos contratos, indispensáveis para o funcionamento do sistema capitalista transformou-se em dever do Estado, exercido por meio da coerção.
A burguesia do começo do século XX queria acumular mais capitais e achava que poderia otimizar ou aperfeiçoar a produção, reduzindo o desperdício de tempo, até porque “tempo era dinheiro”.   MOREIRA (1995) diz que havia uma “porosidade” durante a produção da época da “Primeira Revolução Industrial”, ou seja, uma grande quantidade de tempo de interrupção que o trabalhador fazia no trabalho, gastando tempo e diminuindo a produção.
Para que ocorra este aperfeiçoamento produtivo é criado no interior das Indústrias o chamado de Fordismo. Para que este se devolvesse foi criado o “Taylorismo”, que seria a base do Fordismo, introduzindo noções de trabalho especializado, fragmentado, não qualificado, intenso, rotineiro, insalubre e hierarquizado.
O Taylorismo foi uma ordenação da produção fabril concebida por Frederick W. Taylor (1856/1915) buscando o aumento da produção através da “organização cientifica do trabalho” (OMT), que era uma nova organização espacial do processo produtivo nas fábricas. Tivemos o início da divisão das atividades do processo produtivo nas especializações, tendo uma divisão do trabalho intelectual e do trabalho manual-braçal. O método “taylorista” simplificava ao máximo as tarefas dos operários, de modo que o seu grau de dificuldade fosse o mínimo possível. O fluxo de produção deveria ser dividido e subdividido até que cada trabalhador só realizasse uma ínfima parte do processo como um todo.
Segundo VITA (1989), o Taylorismo dizia que os operários não deveriam perder tempo pensando sobre o que faziam. Planejar, controlar e introduzir melhorias nos processos era responsabilidade de uma equipe de engenheiros e aos operários cabia somente usar as mãos, nunca os cérebros. Esse método trata o trabalhador como se fosse máquina, mas na verdade ele tem até menos status que as próprias máquinas, já que tem que adaptar o seu ritmo de trabalho ao dos equipamentos. Nesse tratamento combinava-se com a dificuldade do trabalhador em identificar-se com o produto do seu esforço. Segundo VITA (1989), um homem que simplesmente fixava para-lamas não via o automóvel pronto como obra sua, ele não era nem ao menos capaz de entender o funcionamento do carro. A única coisa que ele sabia era fixar para-lamas e como resultado o operário não sentia orgulho nem entusiasmo pelo seu trabalho.
Com o modelo taylorista-fordista teremos a “Segunda Revolução Industrial”, que MOREIRA (1995)  diz começar a partir de 1870 (com destaque para o início do século XX). Destacam-se as indústrias metalúrgica, química, siderúrgica e automobilística. As fontes de energias em ebulição eram o petróleo e a eletricidade. O transporte será o aéreo e o rodoviário.
O método de Taylor foi levado às últimas conseqüências por Henry Ford (1862-1947), que criará um método que ficou conhecido como Fordismo. O Fordismo foi concebido nas fábricas de automóveis de Henry Ford (1863/1947) e rapidamente seu método produtivo se espalharia para outras Indústrias dos mais variados tipos de produção em massa. Este revolucionaria a linha de produção com a incorporação da esteira rolante na linha de montagem. Ao longo da linha de montagem, trabalhadores realizam operações geralmente simples, o que simboliza o total desmembramento da produção, sempre objetivando cada vez mais produtividade (com grandes estoques) e maiores lucros. 
Com o Fordismo necessariamente há de ocorrer um aumento da especialização do trabalho,  padronização e produção em série, uma superprodução, um superestoque e um superconsumo.
A superespecialização do trabalho gera o aumento da alienação do trabalho e o surgimento de doenças relativas ao trabalho repetitivo. Os corpos estão ficando cada vez mais automatizados
Esta superprodução foi ruim para a burguesia, pois haveria um superestoque e a conseqüente redução do preço dos produtos. As leis do preço e da oferta-procura dizem “se tem uma produção alta os preços devem ser rebaixados e se a produção é baixa os preços devem ser elevados”.
No começo do século XX tivemos uma grande crise do capitalismo, pois os preços dos produtos estavam caindo, as empresas falindo, os trabalhadores sendo desempregados. Foi uma crise de esgotamento do padrão do liberalismo clássico na economia. Esta crise culminou na Crise de 1929 (da Quebra da Bolsa de Valores de Nova York). O mercado não estava possibilitando a circulação produtiva por ter uma saturação (oferta era maior do que a demanda).
O Fordismo também tem a sua dimensão social e espacial, até porque território é um reflexo da sociedade e a sociedade não é estática. O “espaço ou território fordista” buscará uma integração produtiva para a sociedade capitalista. A integração territorial é o objetivo almejado pela burguesia, pois isto significaria um desenvolvimento do “espaço fordista” e conseqüentemente uma melhor realização das relações produtivas capitalistas.
O “espaço fordista” subsume um território integrado horizontalmente (as chamadas economias de integração), criando uma rede urbana com pleno acesso, pleno consumo, pleno emprego e plena produção. É um território onde ocorre de fato o “meio técnico científico informacional”, ou seja, a globalização em grandes proporções. É um território da inclusão produtiva e também de exclusão social, as fragmentações espaciais entre as classes sociais ficam mais do que evidentes.
MOREIRA (2004, p.103) diz que: “nas sociedades capitalistas a ordem geométrica exprime o jogo das relações criadas para disciplinarizar a hegemonia do capital sobre o trabalho”. Portanto a forma e a ordem geométrica das geografias dos lugares são uma expressão do Modo de Produção das sociedades, além de serem essenciais para a manutenção das relações produtivas.
Voltando à crise de esgotamento do Fordismo com a Crise de 1929, a resposta para esta crise terá duas frentes: uma no interior das fábricas (com a “Terceira Revolução Industrial”) e outra no campo político. Esta segunda é expressa pelo Keynesianismo (Intervencionismo Estatal), a Segunda Guerra Mundial e a intensificação da Colonização nos países africanos e asiáticos.
O capitalismo precisou passar a partir da segunda metade do século XX, por um processo chamado de “reestruturação produtiva”. Havia uma necessidade de a burguesia acumular mais capital de forma mais “flexível”.
A “Terceira Revolução Industrial” teve uma dimensão nas fábricas chamada de Toyotismo. Esta se desenvolveu nas fábricas japonesas da Toyota baseadas nas ideias do engenheiro Taiichi Ohno (1912-1990). Caracterizava-se pelo desenvolvimento tecnológico da produção (robótica, microinformática, internet, meios de comunicação e transporte), pelo sistema just-in-time/JIT (subordinando demanda ao consumo, ou seja, a produção está subordinada à demanda do mercado consumidor, quase nunca produzindo excedentes ou superestoques) e de Kanbam (sistema de controle da reposição de mercadorias, com estoque reposto na medida da quantidade que sai para uso na linha de montagem).
Com o Toyotismo temos um aceleramento da globalização, com economia transnacionalizada e monopolizada nas mãos de poucas empresas. Se no “fordismo” tínhamos “verticalização do tempo”, no “toyotismo” teremos “horizontalização do tempo”. É posta a noção de que se pode “produzir mais com menos”, ou seja, reduzir o número de empregados para se fazer o trabalhador operar mais de uma função. Surge a concepção do “trabalho multi-função”.
Segundo MOREIRA (1995), destaca-se também neste período as indústrias automobilísticas, a microeletrônica, a informática, a máquina CNC (“controle numérico personalizado”), a robótica, o sistema integrado, a biotecnologia, a telemática (telecomunicações informatizadas), etc. O trabalho é polivalente, flexível, integrado em equipe, menos hierárquico, computadorizado, CCQC (programação de conjunto é passada a cada setor da fábrica para discussão e adaptação em equipe, com rodízio de atividades e tarefas que restabelece a possibilidade de uma ação criativa do trabalho ao nível do setor). Há uma ampliação do esgotamento e extenuação do trabalhador, com cada trabalhador operando de 2 a 3 máquinas de uma só vez, aumentando a terceirização do trabalho, a subcontratação e precarização dos direitos dos trabalhadores.
Ocorreu um processo de terceirização da economia, com os empregos passando cada vez mais a serem do tipo “informal” ou precário, ou seja, sem registro em carteira e sem direitos trabalhistas. Proliferam as terceirizações e os “bicos”. Segundo o DIEESE[2] muitos empregos foram criados no período petista na presidência brasileira (de 2002 à 2013), mas a grande maioria destes empregos é composta por empregos precarizados e de baixíssima remuneração. Entre 2000 e 2010 foram criados 20 milhões de postos de trabalho com carteira assinada de até 1,5 salários mínimos, mas foram extintos 4 milhões de empregos que pagavam 3 salários mínimos ou mais. Se entre 1970 a 2000 os empregos de até 1,5 salários mínimos caíram de 77% para 45,8%, de 2000 a 2012, estes empregos subiram para 59%. Dos trabalhadores que ganhavam até 1,5 salários mínimos na década de 2000, 31% eram do setor de serviços, sendo que 2/3 destes trabalhadores eram temporários, sendo demitidos antes de completar 1 ano de serviço. Houve uma precarização do emprego, uma desvalorização dos salários e uma redução dos diretos da classe trabalhadora.
O Neoliberalismo como modelo de economia é posta em prática pelo Estado Capitalista com privatização das empresas estatais criadas sob inspiração Keynesianista. Entretanto, antes do surgimento do Neoliberalismo, é necessário se falar do Keynesianismo.
O Keynesianismo ou Intervencionismo foi influenciado na experiência soviética e é um planejamento macro-capitalista, surgindo para salvar o capitalismo, solucionando e amenizando nas crises cíclicas do capital. Este diz que o Estado tem de ser regulador, indutor e organizador, mas não deve intervir nas empresas. O Keynesianismo é necessário para que seja instalado o “espaço fordista” no território.
MOREIRA (2004, p.56) diz que o Estado Liberal é convertido no Welfare-State (o Estado do Bem-Estar Social). O Estado geraria a sociedade “para viabilizar a acumulação do capital pelos grandes monopólios econômicos”, tendo a “tarefados investimentos em infra-estrutura (transportes, indústrias de equipamento, comunicações, etc) e em meios de consumo coletivo (escolas, hospitais, transportes urbanos de massa, etc), com recursos públicos”. Temos a socialização de recursos para a maior acumulação privada dos grandes monopólios econômicos.
O Keynesianismo se utiliza da social-democracia (e o Estado do Bem-Estar Social) para ser reformista e humanizar o capitalismo. Ele deixará alguns serviços gratuitos e contribuirá para que outros serviços sejam ofertados por empresas privadas, fato que também contribuirá no aumento do consumismo.
Os EUA na década de 1930 lançará as práticas Keynesianistas através do programa New Deal, que foi implementado pelo presidente F. Rooseevelt. O Keynesianismo esteve presente em praticamente todos os países do mundo entre as décadas de 1930 à 1980[3].
Na pós-segunda guerra mundial o Keynesianismo é mantido, mas abrandado e suavizado nos EUA e nem tanto na Europa. A Guerra Fria foi um motivo para a continuidade do Keynesianismo nos países capitalistas.
Com a “Crise do Petróleo” na década de 1970 (que vinha ocorrendo desde a criação da OPEP em 1960) temos um esgotamento do Keynesianismo e surgirá assim o Neoliberalismo. GENTILLI (s/d)[4] diz que o neoliberalismo significou “(...) estratégias políticas, econômicas e jurídicas orientadas para encontrar uma saída dominante para a crise capitalista que se inicia ao final dos anos 60 e que se manifesta claramente já nos anos 70”.
Os politicos que aplicarão integralmente a cartilha neoliberal serão a Primeira Ministra da Inglaterra Margaret Thatcher, o Presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan, o Presidente da Alemanha Helmut Khol e o ditador chileno Augusto Pinochet.
Um pouco antes, verificava-se que o projeto neoliberal começa a ser aplicado com o então presidente norte-americano Richard Nixon, que, em 1971 decidiu acabar com a paridade do dólar com o ouro, desligando todo o sistema monetário da contrapartida em valor real. Esta desregulamentação “neoliberal” dará corda à explosão da especulação financeira e faz com que o imperialismo norte-americano despeje o custo de sua sobrevivência sobre o mundo inteiro.
A partir deste período, as empresas que tinham se tornado muito poderosas, perceberam que o Estado virara obstáculo para o avanço delas mesmas. A derrocada da Guerra Fria também facilita neste esgotamento do Keynesianismo.
Os grandes teóricos do neoliberalismo são Friedrich A. Hayek e Milton Friedman que se preocupam com a reforma econômica e uma mudança nas mentalidades e na cultura dos povos. Segundo GENTILI (s/d), tanto Hayek (em “O caminho da servidão”) quanto Milton Friedman (em “Liberdade de Escolher”) dizem que “toda forma de intervenção estatal constitui um sério risco para a liberdade individual e o caminho mais seguro para a imposição de regimes totalitários corno o da Alemanha nazista e o da União Soviética comunista” e “só quando a sociedade reconhece o verdadeiro desafio da liberdade é possível evitar as armadilhas do coletivismo”.
O neoliberalismo surge com as retomadas dos ideais do liberalismo clássico, mas com adaptações, como nas idéias de liberalização, desregulamentação, flexibilização, precarização, privatizações, etc. Segundo GENTILI (s/d), o neoliberalismo é um sistema politico que possibilita:
(...) permitir aos indivíduos desenvolver sua inesgotável capacidade de livre escolha na única esfera que garante e potencializa a referida capacidade individual: o mercado. A crise social se deriva, fundamentalmente, de que os sistemas institucionais dependentes da esfera do Estado (da política) não atuam eles mesmos como mercados. Isto ocorre, segundo a perspectiva neoliberal, no campo da saúde, da previdência, das políticas de emprego e também, é claro, da educação.
Apesar de se buscar o “Estado Mínimo”, é errôneo afirmar que o neoliberalismo acabou com o Estado, pois este ainda define o preço da força de trabalho (salário), redistribuição da mais-valia (jurídica e fiscal-impostos), tem importância ideológica (nação, escolas e repressão), etc.
ABRAMOVAY (1992) diz que não podemos afirmar que o Keynesianismo foi deixado totalmente de lado. Só deram uma suavizada nele, pois ainda é operante na agropecuária mundial (principalmente na Europa).
Na Europa, as práticas keynesianistas sustentam a renda agropecuária dos agricultores familiares (camponeses), que tem importância estratégica. No Japão temos um Keynesianismo nas intervenções estatais na produção do arroz (deixam preço alto no arroz de outros países) e na indústria pesqueira. No Brasil temos um Keynesianismo nas práticas de incentivo ao consumo (como na redução do IPI), o financiamento dos custos de produção para a redução de tarifas de energia (sendo que para a população varia de 16-18% e para as indústrias foram de até 32%). Nos EUA, o presidente Barak Obama pratica o Keynesianistmo ao privatizar a GM e propor um pacote de ajustes fiscais.
A crise capitalista de 2008-09 foi uma crise de esgotamento do padrão neoliberal. O capitalismo já está se mobilizando para achar soluções para mais esta contradição. Percebe-se, que se busca articular ideais do neoliberalismo com ideais do Keynesianismo, sendo o primeiro voltado à economia global e o segundo voltado às economias nacionais.
Estamos agora na era “pós-fordista” ou na “sociedade do conhecimento”. No Brasil, o “espaço fordista” só se consolidará totalmente durante o segundo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2006-2010), pela consolidação do consumo (destacando programas de aumento de renda familiar, tal como a “Bolsa Família”). Atualmente temos em nosso território o “espaço pós-fordista ou toyotista”, levando a globalização produtiva da sociedade capitalista às últimas conseqüências, integrando horizontalmente vários locais distantes localmente. A exclusão e a desigualdade social e territorial estão ainda maiores e cada vez mais planejadas.
O super-consumo gera um consumismo e um endividamento das pessoas. O brasileiro teve um incremento de renda principalmente pela aplicação das políticas de transferências de renda, que são práticas paliativas e compensatórias, que foram iniciadas nos governos tucanos de Fernando Henrique Cardoso e possuem a aprovação do Banco Mundial. Esta política era necessária para incrementar renda para as classes menos abastadas, entretanto, esta virou uma importante fórmula de controle social. Os brasileiros com esta verba à mais está consumindo mais, obtendo mais bens materiais. É importante deixar claro que "ter não é ser", pois possuir bens materiais não significa uma emancipação social, fato que somente ocorrerá com a derrocada da sociedade capitalista. Ter bens materiais gerou uma falsa sensação de liberdade, mas aguçou o individualismo na sociedade brasileira, fato que freia mobilizações sociais e reproduz o egoísmo “ostentatório” entre as pessoas. A fetichização da mercadoria está em suas últimas consequências. Ao incentivar alienadamente os programas assistencialistas, o PT despolitiza os debates e a necessária crítica às contradições da sociedade capitalista. Segundo o DIEESE[5], o brasileiro pode estar com mais renda, mas está cada vez mais endividado, onde 118 milhões de brasileiros são endividados, sendo 37 milhões com contas atrasadas e 12 milhões que não podem pagar suas dívidas. Por estarmos entre os países com maiores taxas de juros no mundo, se uma pessoa pegasse R$ 100 emprestados no início do ano, pagaria R$ 188 no final.
O “espaço pós-fordista ou toyotista” cria territórios de exclusão, levando o processo de globalização às últimas conseqüências. Apesar do “mercado aberto”, o poder econômico está cada vez mais centralizado nas mãos de poucas empresas. Segundo VITA (1989) um núcleo central de 1.318 grandes empresas com laços com duas ou mais outras empresas - na média, cada uma delas tem 20 conexões com outras empresas. As 1.318 empresas em conjunto detêm a maioria das ações das principais empresas do mundo nos mercados de ações. Estas empresas detêm um controle sobre a economia real que atinge 60% de todas as vendas realizadas no mundo todo. Uma "super-entidade" de 147 empresas intimamente inter-relacionadas que controla 40% da riqueza total daquele primeiro núcleo central de 1.318 empresas. Menos de 1% das companhias controla 40% da rede inteira.
Nesta mesma toada, segundo dados do DIEESE[6] as transnacionais dominam a economia no Brasil, representando 100% das montadoras, 92% do setor eletroeletrônico, 75% das autopeças, 74% das telecomunicações, 68% do setor farmacêutico, 60% da indústria digital 57% do setor de Bens de Capital, 55% do setor de bens de Consumo, 50% da siderurgia e metalurgia, 47% da petroquímica, etc. No agronegócio 30 empresas dominam o complexo agroindustrial e mais de 70% destas empresas são multinacionais.
A globalização, as “redes geográficas” e o "meio técnico-científico-informacional" estão mais desenvolvidos na sociedade capitalista, até para que a produção capitalista ocorra de maneira mais lucrativa para a burguesia, fazendo com que o capital se reproduza de maneira mais potencializada. Com o advindo do espaço toyotista, teremos um “embaralhamento de territorialidades” em uma “rede produtiva”, cujo sentido pode ser visualizado na passagem de MOREIRA (1997, p.3) a seguir:
 (...) Extinguem-se, assim, os espaços do mundo organizados em regiões singulares e de compartimentos fechados, a intensidade e a globalidade das interligações ainda mais aumentam, a mobilidade territorial mais se agiliza, a distância entre os lugares e suas coisas mais se encurta, a espessura do tecido espacial mais se adensa, e o espaço do planeta se comprime.
Para que esta “rede produtiva” seja instalada, o Estado deve exercer importante função, como pode ser visto nesta passagem de MOREIRA, (1985, p.107):
É embaixo da pesada repressão policial-militar que sobrevém aos confrontos de 1934-1935 que o bloco industrial agrário impõe ao movimento operário esta ampla tutela: a jurídico política (tutela sindical-trabalhista) e a ideológico-cultural (tutela escolar). Desarticulado organicamente pelos aparatos repressivos do Estado, o operariado e igualmente desarticulado em seus parâmetros de existência. Progressivamente, completa-se a desagregação da sua condição de classe, sob um modo de vida imposto pelas articulações do capital, via Estado corporativo: no espaço-fabril-bairro se dissolve no espaço-mercado, e a consciência de classe se dissolve na cultura formal-escolar.
Principalmente através destes aparatos, temos uma verdadeira “globalização” produtiva e de territórios, com unificação de lugares e de espaços regionais dantes isolados. Esta globalização em rede também se dá na padronização dos modos de vida dos moradores das cidades e dos campos, possibilitando a perda da individualidade e muito da identidade local destas pessoas. Podemos refletir sobre como se constrói e dinamiza o tecido de relações da rede produtiva capitalista nesta passagem de SANTOS (1978-a, p.16):
 (...) Em todo o lugar a tendência é a concentração do capital, mesmo que, excepcionalmente, haja possibilidade de descentralizar um pouco a produção. Ora, o excedente é antes de tudo um fluxo. No regime capitalista, onde a lei fundamental é a da acumulação de capital o mais rápido possível, os fluxos de excedentes só podem convergir para o lugar onde se encontram os mecanismos mais eficazes para sua multiplicação.
Nestas duas passagens de SANTOS (2002, p.244 e p.336), ele ressaltará que as fronteiras dos territórios nacionais estão sendo ultrapassadas e transcendidas, além de mostrar o poder das transnacionais na sociedade moderna:
(...) os territórios nacionais se transformam num espaço nacional da economia internacional e os sistemas de engenharia mais modernos, criados em cada país, são mais bem utilizados por firmas transnacionais que pela própria sociedade nacional.
(...)
(...) O interesse das grandes empresas é economizar tempo, aumentando a velocidade da circulação. (...) corporação do território, com a destinação prioritária de recursos para atender as necessidades geográficas das grandes empresas, acaba por afetar toda a sociedade.
A organização em redes torna-se cada vez mais necessário para o capitalismo, pois o permitiu as “vantagens comparativas”, ou seja, localidades onde a redução dos custos do trabalho e da produção trazem mais vantagens para o capital. Para se reduzir os custos de produção e aumentar seus lucros, as empresas se reorganizam, mudando suas sedes, “relocalizando-se” constantemente.
Compreender a rede geográfica é determinante para compreender o fenômeno de globalização, a sociedade e o espaço contemporâneo. As exclusões e desigualdades espaciais e sociais são a raiz do Modo de Produção Capitalista e é uma contradição do capital compreendida na “lei do desenvolvimento desigual e combinado”. Só há uma igualdade aparente no mercado, que desaparecerá na esfera da circulação, com a desigual distribuição de renda ou das riquezas (ao patrão cabe a riqueza e ao empregado a pobreza). Há também uma desigualdade nas taxas de mais-valia entre os capitalistas nas diferentes empresas. Esta desigualdade combinada só tende a ampliar na reprodução da acumulação do capital.
A crise capitalista de 2008-09 foi uma crise de esgotamento do padrão neoliberal e o capitalismo está tendo dificuldades para sair desta situação. Vivenciamos uma “Crise do emprego”, pois o modelo pós-fordista passou a exigir qualificação do trabalhador, mas não a garantia do emprego. A qualificação da mão-de-obra passou a tornar-se um sistema não de seleção de mercado, mas de exclusão de milhares de pessoas, pois além de jogar sob as costas do trabalhador individual a necessidade de qualificação, milhares estão excluídos da qualificação e do mercado, abandonados pela falta de investimento do Estado em políticas públicas. Também passaríamos por uma “Crise do capital”, que faz com que diversos governos, seguindo as exigências dos organismos financeiros internacionais do capital (coo o Banco Mundial, etc), passassem a defender a redução do investimento público (“reduzir o tamanho do Estado”), às privatizações, demissões no setor público, redução de salários, aumento da idade de aposentadorias e/ou manutenção de altas taxas de juros.
A superação e a extinção do modo de produção capitalista tornou-se uma necessidade para a superação destas contradições.

REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS
ABRAMOVAY, Ricardo. Paradigmas do capitalismo agrário em questão. São Paulo/Rio de Janeiro/Campinas: HUCITEC/ANPOCS/UNICAMP, 1992.
CORRÊARoberto Lobato. Interações Espaciais. In: Explorações Geográficas – percursos no fim do século (organizadores: Iná Elias de Castro, Paulo César da Costa Gomes, Roberto Lobato Corrêa), Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
FERREIRA, Wladimir Jansen. Uma Leitura Geográfica da Formação da Cidade de São Paulo na Obra de Adoniran Barbosa. Trabalho de Conclusão de Curso de Geografia na PUC-SP. São Paulo: PUC-SP, 2005.
_________________________. Uma Análise Crítica do Conceito de Natureza no Currículo de Geografia do Estado de São Paulo. Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Ensino de Geografia na PUC-SP. São Paulo: PUC-SP, 2011.
GENTILI, Pablo. Neoliberalismo e educação: manual do usuário. Retirado do site http://firgoa.usc.es/drupal/node/3036. S/D.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
HUNT, E. K. & SHERMAN, Howard J., O Liberalismo Clássico e o Triunfo do Capitalismo industrial. In: História do Pensamento Econômico, Rio de Janeiro: 1977, Vozes.
MOREIRA, Ruy. O movimento operário e a questão cidade-campo no Brasil. Petrópolis/RJ: Vozes, 1985.
_______________. Inovações Tecnológicas e Novas Formas de Gestão do Trabalho.  Niterói: AGB-Niterói, 1995.
_____________. Da região à rede e ao lugar: a nova realidade e o novo olhar geográfico sobre o mundo. In: Ciência Geográfica, N° 6, Bauru: AGB-Bauru, 1997.
______________. O círculo e a espiral – para a critica da geografia que se ensina. Niterói: Edições AGB-Niterói, 2004
______________. Para onde vai o pensamento geográfico? – por uma epistemologia crítica. São Paulo: Contexto, 2006.
SANTOS, Milton. Espaço e Dominação. In: Seleção de Textos Nº 4 da AGB-SP, Junho de 1978, São Paulo: AGB-SP, 1978-a.
_____________. Por Uma Geografia Nova, São Paulo: Hucitec, 1978-b.
_____________. A Natureza do Espaço: espaço e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2002.
VITA, Álvaro. Sociologia da Sociedade Brasileira. São Paulo: Ática, 1989




[1] Adam Smith em “Riqueza das Nações, livro de referência do Liberalismo Clássico, já dizia que os governos teriam 3 funções: proteger o país contra invasores estrangeiros, proteger os cidadãos contra “injustiças” cometidas por outros cidadãos e do dever de erigir e manter as instituições e obras públicas.
[2] Extraído de A cara do emprego no governo do PT” (18 de Julho de 2013) em http://www.pstu.org.br/node/19681.
[3] Podemos citar o Keynesianismo belicista na Alemanha de Hitler, o Keynesianismo do Plano Columbu no Japão, o Keynesianismo na Coréia. O Keynesianismo brasileiro se deu com Getulio Vargas e com o nacional-desenvolvimentismo de Juscelino Kubitchek (Plano de Metas).
[4] Extraído do site http://firgoa.usc.es/drupal/node/3036. Originalmente está presente em: “GENTILI, Pablo. Neoliberalismo e Educação: manual do usuário. In: SILVA, Tomaz Tadeu da & GENTILLI, Pablo (orgs). Escola S.A.: quem ganha e quem perde no mercado educacional do neoliberalismo. Brasília: CNTE. 1996”.
[5] Extraído em http://www.pstu.org.br/node/19672 (“Brasil mais endividado que nunca”, de 18 de Julho de 2013)
[6] Extraído de http://www.ilaese.org.br/wp-content/uploads/2013/03/APRESENTA%C3%87%C3%83O-CONGRESSO-PETROLEIROS-SERGIPE-MAIO-2013.pdf

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