O
Propósito da Geografia Escolar na “Sociedade do Conhecimento”
Wladimir
Jansen Ferreira
Resumo
Este artigo tem como finalidade tecer reflexões
sobre a geografia escolar, debatendo sobre vários assuntos relativos ao tema.
Para se discutir o propósito da geografia escolar, inicialmente discutiremos
sobre os significados de ciência geográfica e de Escola, discutindo
conceitos de “consciência geográfica”, “alfabetização geográfica” e
“geograficidade”, além de tecer relações entre Escola e Estado Capitalista. Para
se entender o porquê se ensina geografia refletimos sobre a funcionalidade
social da escola, ressaltando a sua função de fomentar a identidade pátria. Também serão realizadas importantes reflexões
sobre noções muito comuns na linguagem pedagógicas (tais como o de competências,
habilidades, conteúdos, Construtivismo, etc.). Este artigo refletirá sobre o
significado da “Sociedade do Conhecimento” e de como a geografia escolar se
porta diante desta.
Palavras-Chaves: Ciência Geográfica, Escola, Alfabetização
Geográfica, Construtivismo e Sociedade do Conhecimento.
Summary
This article aims to weave reflections on school geography, debating on
various issues related to the topic. To discuss the purpose of school geography
initially will discuss the meanings of geographical science and school,
discussing concepts of "geographic awareness", "geographic
literacy" and "geographicity" in addition to weave relationships
between school and the capitalist state. To understand why we teach geography
reflect on the social functioning of the school, emphasizing its function of
promoting the identity homeland. There will also be important reflections on
notions very common in language teaching (such as skills, abilities, content,
Constructivism, etc.). This article will reflect on the meaning of
"Knowledge Society" and how the school geography is this door before.
Key Words: Geographic Science, School Literacy Geographic, Constructivism
and Knowledge Society.
Resumen
Este artículo tiene como objetivo tejer reflexiones
sobre geografía de la escuela , el debate sobre diversas cuestiones
relacionadas con el tema. Para hablar sobre el fin de la geografía escolar
inicialmente discutirá el significado de la ciencia geográfica y la escuela,
discutiendo conceptos de "conocimiento geográfico", "conocimiento
geográfico" y "geographicity", además de tejer relaciones entre
la escuela y el Estado capitalista. Para entender por qué enseñamos geografía
reflexionar sobre la función social de la escuela, haciendo hincapié en su
función de promover la patria identidad. También habrá importantes reflexiones
sobre nociones muy comunes en la enseñanza de idiomas (como las habilidades ,
capacidades , contenidos, constructivismo , etc.). En este artículo se hará una
reflexión sobre el significado de la "Sociedad del Conocimiento" y
cómo la geografía de la escuela es la puerta antes.
Palabras Clave: Ciencia
Geográfica, Escuela, Alfabetización Geographic, Constructivismo y la Sociedad
del Conocimiento.
Toda Ciência trabalha com Ordenações Lógicas,
possuindo seus Códigos, ou seja, toda análise científica é uma forma diferente
de se compreender a realidade. Todas as pessoas constroem um discurso sobre o
mundo e a Ciência Geográfica é um discurso sobre o mundo, possuindo uma
tradição discursiva que tem de ser desvelada.
A realidade possui um “fundamento geográfico”, pois
para que as coisas aconteçam, elas têm de ocorrer em lugares. MARTINS (2009,
p.16) diz que:
A
geografia ou o geográfico, enquanto fundamento, é algo que se estabelece a
partir da relação sociedade/natureza. Ou seja, tanto no sujeito como no objeto,
a relação sociedade natureza se traduz numa ordem espaço-temporal dos elementos
que resultam da relação.
Neste sentido, podemos afirmar que a história (seja
das sociedades ou da natureza) é “geografia em pensamento”. Nesta toada,
MARTINS (2009, p.15) diz que a geografia dos lugares além de ser um fundamento
da realidade, é uma: “(...) determinação que se mostra como fenômeno, que
mediante diferentes teorias será entendido de formas distintas”. Portanto, a
realidade é uma totalidade, podemos ler um fenômeno da realidade de diversas
formas, cada análise científica é uma versão possível da realidade ou do
geográfico. PEREIRA (2003, p.12) disse que: “quando se observa a realidade de
forma disciplinar, ou seja, a partir dos diversos ramos em que o conhecimento
científico se dividiu, devemos ter claro que a fragmentação é produto do nosso
olhar e não da própria realidade”.
A geografia dos lugares ou o espaço é um dado da
realidade e a ciência geográfica não pode querer ter o monopólio científico
desta categoria da realidade. MARTINS (2009, p.24) diz que o espaço (ou a
geografia dos lugares) “nos chega na forma de território, região, área,
paisagem, etc”.
Fazer uma análise utilizando-se da Ciência
Geográfica significa compreender a lógica de ordenação dos lugares, ou seja,
entender as relações de força constitutivas de nossa sociedade capitalista
partindo dos fenômenos em sua dimensão territorial.
A Ciência Geográfica permite que os indivíduos
tenham uma “Consciência Geográfica” do mundo, ou seja, compreender a ordenação
territorial das coisas, entendendo como elas se localizam no território (ou na
Geografia dos lugares), levando à compreensão do sujeito e de outros locais.
Neste sentido, MARTINS (2009, p.17) diz que: “a consciência geográfica passa
por entender esta determinação geográfica da existência”.
Não necessariamente o reconhecimento da topologia é
fazer geografia, pois este reconhecimento tem de ser realizado geograficamente,
sob as ordens lógicas da Ciência Geográfica. Fazemos um discurso geográfico
para falar das coisas, utilizando-se de categorias e conceitos próprios da
Ciência Geográfica.
Além desta específica importância do espaço na
realidade, devemos ressaltar que os fenômenos possuem uma dimensão territorial
que contribui nas análises científicas e é a expressão do fundamento
metodológico da ciência geográfica.
Os fenômenos da realidade possuem uma
geograficidade, cuja importância pode ser mais bem compreendida na passagem de
MOREIRA (2004, p. 193) a seguir:
(...) todo ente para ser geográfico tem que estar
localizado, donde a geograficidade começar na localização no espaço. A
localização espacial é essencial e a paisagem um seu pressuposto. Todavia o
estar-sozinho não constitui um mundo. É preciso então que a localização se
defina como uma distribuição. Isto porque mais que um sistema de localizações,
a distribuição é a própria inserção do estar-no-mundo do ente. É coabitação. Só
quando a coabitação se estabelece, só então a existência se faz presença. E o
mundo então se forma. (...) É com a distribuição que a relação entre os entes
aparece, o ente se vendo num todo e seu sentido se faz presente. Esta
a-presentação/presenticidade do ente na distribuição é o que torna a
localização um elo, um estar-no-alguma-coisa do ente, mundo, o espaço virando
espacialidade.
O sistema
capitalista de produção proporciona uma articulação e padronização de modos de
vida, pessoas e também de lugares em uma rede produtiva que possui uma dimensão
geográfica. Conceber a relação realizada com os lugares por onde passou, faz
com que o espaço esteja subsumido à existência dos indivíduos, demonstrando que
os usos (formas e funções) também definem o conteúdo.
Segundo
MARTINS (2009, p.33-34), a sociedade se reproduz em uma geografia e determina o
geográfico, sendo que a geografia dos lugares é determinante nas relações
sociais de produção (no modo de produção das sociedades):
O contemporâneo é a história se realizando em
geografias, e a geografia determinando a sociedade e, por conseguinte, a
história. Sem jogo de palavras: as ações humanas, em sociedade, repercutem na
apropriação objetiva e subjetiva do meio geográfico existente e, a partir daí,
a sociedade se totaliza, reproduzindo-se mediante as condições impostas pelo
geográfico já ali estabelecido. (...) muito mais que o espaço, é a geografia
que garante a reprodução das relações sociais de produção.
A geografia escolar surgiu para fomentar a
identidade pátria, mas o propósito escolar não reflete apenas neste objetivo. O
ser humano necessita saber onde está para encontrar sua identidade ou saber
quem ele é.
Para se compreender a importância da geografia
escolar temos de inicialmente levar em conta o significado de Ciência
Geográfica e de Escola. Portanto, para se entender o porquê se ensina geografia
temos de refletir sobre a funcionalidade social da escola.
A
escola trabalha com a relação
do simbólico, ou seja, trabalha com o imaginário dos estudantes e pessoas. Os
saberes da sociedade são representações da sociedade sobre si mesma. Todas as
sociedades têm relações de noções espaciais, relações com o mundo, percepções
do mundo em linguagens. Os lugares determinam relações sociais e as relações
sociais são a materialização do lugar (se materializam no lugar).
A escola legitima uma situação pré-existente,
onde o lugar de cada um na escala social é determinado pelos resultados
escolares. A escola reproduz a divisão da sociedade em categorias sociais
distintas, reflete, portanto, a luta de classes nas sociedades. Neste sentido,
todas as instituições da sociedade existem para manter a sociedade vigente e a
escola existe para este fim.
A escola é representante do Estado (que cria
o estado de marginalidade) e é responsável pela marginalidade dos meninos de
escolas de periferia. Segundo LEAL (1993, p. 72), através da escola que a
sociedade se reproduz, sendo ela "(...) um instrumento de propaganda e
perpetuação do Estado. A escola não pertence à nação nem ao povo. Ela é
instrumento do aparato burocrático-cívico-militar – uma das formas de dominação
que pairam sobre o povo através do Estado".
Para que o Modo de Produção Capitalista
exista, é necessário que haja um Estado Nacional que terá a função de organizar
a produção e as relações sociais. No território do Estado-Nação chamado de país
é necessário também que haja somente uma nação hegemônica vivente neste lugar,
pois isto significaria uma “Unidade Nacional”, que garantiria uma “Unidade
Territorial” e conseqüentemente uma “Unidade Produtiva”.
Portanto, na sociedade capitalista os saberes
locais são obrigados a se adaptarem à um modelo nacional para o “garantimento”
da unidade territorial e produtiva. Os diferentes
níveis de dificuldade na manipulação de determinados conteúdos pelo professor
na escola está relacionado à existência das culturas e o saber local ainda não
subsumido pelo processo ideológico da sociedade capitalista. SANTOS (2008, p.20) nos alerta dizendo que a “escola jamais conseguiu
eliminar o saber local, pois é com ele que o aluno constrói os fundamentos de
sua própria identidade como pessoa e é com base nele que nos reconhecemos no
interior de nossa comunidade”.
A Ciência Geográfica permite que os indivíduos
tenham uma “Consciência Geográfica” do mundo. Esta “Consciência Geográfica”
possibilita que os indivíduos tenham conhecimentos locais, sendo este
imprescindível para saber quem somos e para se ter um conhecimento de locais
para dominação ou reprodução social.
Conhecer locais diferentes do vivido é importante
porque permite que o indivíduo construa sua identidade, pois nos reconhecemos
na diferença, na alteridade. Compreender locais diferentes possibilita ao
entendimento da sociedade e suas condições sociais, porque cada vez mais, nossa
vida acontece de maneira desterritorializada e cosmológica.
O professor necessita ter as consciências da função
social da escola e sobre a sua prática profissional, que é uma prática social e
política na sua essência. A Ciência Geográfica na Escola possibilita que o
aluno reconheça diferentes lugares e crie um discurso sobre si, auxiliando na
reprodução social.
O aluno tem de compreender onde ele está para saber
o significado de sua localização e da localização das coisas no território.
Esta discussão sobre localização é importante para que o aluno tenha uma
consciência de sua existência e possa transgredir de sua condição social.
Este aluno se reconhece no espaço vivido, ou seja,
a partir da geografia do lugar. A Consciência Geográfica possibilita que o
aluno se alfabetize geograficamente, percebendo que ele faz parte da geografia
do lugar e de que o lugar constrói uma identidade nas pessoas, além da
compreensão de que as pessoas constroem os lugares. Segundo PEREIRA (2003, p.12):
Alfabetizar geograficamente é, pois, dar sentido a
essa espacialidade dos fenômenos. Mas, como estamos nos referindo a um processo
de ensino-aprendizagem, é preciso que nos referenciemos pedagogicamente para
podermos construir, passo a passo, essa noção e esse instrumento de análise com
o nosso aluno.
Alfabetizar não pode ser reduzido ao processo de
letramento. PEREIRA em outro artigo define a alfabetização geográfica (Pereira,
1996, p.53):
Alfabetização, para a geografia, somente pode
significar que existe a possibilidade do espaço geográfico ser lido e,
portanto entendido. Pode transformar-se, portanto, a partir disso, em instrumento
concreto do conhecimento. Mais que isso, o espaço geográfico pode
transformar-se em uma janela a mais para possibilitar o desvendamento da
realidade pelo aluno.
SANTOS (2008, p.22) diz que todas as disciplinas
escolares durante o processo de ensino-aprendizagem, geram um processo contínuo
de alfabetização. O ensino das disciplinas de Português, Matemática, Artes,
Educação Física seriam “vinculadas à reflexão das regras gerais das
linguagens”, construindo “seus significados na medida em que é capaz de
refletir sobre mensagens” e o ensino das disciplinas de Geografia,
História, Química, Física e Biologia “se vinculam à reflexão dos
fenômenos”, construindo “os seus significados na medida em que desvenda as
regras que definem seus próprios discursos”.
Discutir o papel da geografia escolar é discutir a
identidade do professor e o papel do professor na formação dos alunos. É
fundamental que os alunos possam identificar a contribuição dos conhecimentos
geográficos para a elucidação de mundo em que vivem. O professor deve ter
consciência sobre qual é o papel da geografia no processo de alfabetização do
aluno e qual a contribuição da geografia para a sua aprendizagem.
O professor de geografia deve ter a preocupação de
praticar a interdisciplinaridade, o diálogo entre várias disciplinas,
entretanto ele deve fazer uns questionamentos, pois o Geógrafo deve ter claro
sua identidade, o papel da ciência geográfica e da geografia escolar.
Concordo com PEREIRA (1999, p.43) à este respeito:
(...) se
está confundindo a parte com o todo porque considero que, para praticarmos a
interdisciplinaridade, cada uma das disciplinas precisa saber exatamente o seu
papel, a sua função, o que vai observar, o que vai relevar e como vai fazer
tudo isso. Quando não nos atemos a nenhuma desses detalhes entramos no caminho
da confusão, onde, ao invés da interdisciplinaridade temos uma sucessão de trombadas
e vazios.
Portanto,
a necessidade da construção e fortalecimento do discurso geográfico é uma
necessidade, não apenas do desempenho da Geografia de forma isolada, mas também
e principalmente do que ela deve afirmar na relação com as demais disciplinas.
È necessário que o professor de geografia tenha a
compreensão do que quer ensinar quando ministra suas aulas. Necessariamente
este debate tem de passar sobre o significado de ciência geográfica, o
significado de escola e o significado do “saber”.
Inicialmente, o professor de geografia deve ter a
consciência de que os saberes da sociedade são representações da sociedade
sobre si mesma, sofrendo determinações do seu Modo de Produção ou da sua
espaço-temporalidade em que se constitui. Todas as sociedades têm
relações de noções espaciais, relações com o mundo, percepções do mundo em
linguagens. Os lugares determinam relações sociais e as relações sociais são a
materialização do lugar (se materializam no lugar).
O “fundamento do processo civilizatório” ou da
construção cultural das sociedades necessariamente tem de passar sobre o
reconhecimento da espacialidade das pessoas, pois o indivíduo se reconhece em
um lugar. Neste contexto, a instituição escolar tem um papel imprescindível,
pois trabalha com memórias, códigos, símbolos e significados dos indivíduos. A
percepção da condição espacial das pessoas é o pressuposto na construção do
processo civilizatório. As pessoas são símbolos carregados de códigos de
conduta, ou seja, o processo de ensino-aprendizagem é um jogo simbólico para a
construção do processo civilizatório que tem de levar em conta a vida material
e o simbólico dos alunos. O comportamento das pessoas tem uma forte relação com
o simbólico e os símbolos são necessariamente carregados de cultura, ou seja,
são carregados de intenções e de valores sociais.
Afirma-se que os professores não sabem da realidade
ou da subjetividade dos alunos. Só sabem se os alunos sabem os saberes
necessários que os professores estão procurando ou propondo. Jamais saberão de
todos os seus saberes, é impossível e não deve ser a finalidade da prática
pedagógica. O aluno pode reproduzir o discurso do professor, mas estes jamais
saberão o que ele aprendeu. Para a prática pedagógica, o professor deve
diferenciar quais saberes os alunos possuem e o que se quer que eles tenham no
fim do processo.
O conteúdo dentro do processo de
ensino-aprendizagem é essencial, mas compreende-se que historicamente a
geografia escolar pecou em ser muito “conteudista” e por não ter um rigor metodológico.
Concordo com ASCENÇÃO (2009, p.4) que cita Moraes (1998)[1],
para criticar a geografia escolar de até meados da década de 1990 que teria
abandonado os “conteúdos e conhecimentos fundamentais para a compreensão
espacial, bem como a não incorporação dos elementos físicos presentes no espaço
geográfico nas práticas de ensino de Geografia”. ASCENÇÃO (2009, p.5) destaca
alguns expoentes do “movimento renovador da geografia escolar”[2]
que farão a crítica de maneira mais sistematizada.
Concordo com MARTINS (2009, p.13) quando cita
MOREIRA (1987)[3]:
“Antes tínhamos uma geografia com forma mas sem conteúdo, e passamos a uma
geografia com conteúdo mas sem forma”. Na ânsia de se fazer uma crítica à
“geografia tradicional”, deixou-se de lado a perspectiva geográfica e uma
firmeza metodológica.
A geografia escolar foi influenciada pelas
discussões da geografia acadêmica. Também concordo com a crítica feita por
ASCENÇÃO (2009, p.5 e p.6) à geografia escolar tradicional e à “geografia crítica”:
(...) abordagem regional que, até
meados da década de 1980, marcou o Ensino de Geografia no Brasil. Essa
abordagem tratava seqüencialmente o estudo de aspectos físicos (clima, relevo,
vegetação, hidrografia) e aspectos humanos (demografia, urbanização, economia),
sem associá-los a fim de se compreender as organizações espaciais. Além disso,
adotava uma prática pedagógica pautada na memorização de fatos sobre os
espaços. Tal perspectiva passou a sofrer severas e pertinentes críticas,
referentes tanto aos seus aspectos metodológicos, como à naturalização das
organizações espaciais, apresentadas como dadas e não como construídas em
função de determinados interesses e tomadas de decisões.
(...)
A Geografia Crítica de base
marxista na geografia escolar levou à uma “negligência da espacialização do
fenômeno”, sendo falho em alguns aspectos.
Ainda que a abordagem crítica
tenha feito divulgar e reconhecer a dimensão social na estruturação do espaço
geográfico, considera-se que para a prática de ensino de Geografia ela pouco
contribuiu. Pondera-se a permanência de uma abordagem fragmentada dos elementos
espaciais – industrialização, urbanização, movimentos demográficos – e
aponta-se para a introdução de uma depreciação de trabalhos que relevassem os
elementos físicos – relevo, clima, vegetação, hidrografia –, considerados
simbólicos da Geografia Regional lablachiana, com a qual se buscava romper.
Para a efetivação do processo de
ensino-aprendizagem, a geografia escolar deve levar em conta conteúdos,
habilidades, competências. Entretanto, isto não significa a defesa do
Construtivismo, tal como faz ASCENÇÃO (2009, p.8), que citará mais geógrafas
que partem deste princípio:
As “novas
orientações” trazem como princípio básico que os educandos tornem-se leitores
do espaço e compreendam que, ao mesmo tempo em que o homem produz organizações
espaciais ao agir sobre os espaços, suas ações (individuais e coletivos) são
indicativos do modo como estão organizados os espaços. Essas orientações,
assentadas na perspectiva construtivista, compreendem que sujeito e objeto
estabelecem, na estruturação do espaço geográfico, relações dialéticas, ou
seja, “o sujeito interagindo com o objeto o constrói através do ato de
conhecê-lo, ao mesmo tempo que se constrói como sujeito cognoscente” (BRAGA,
1996: 157)[4].
Cavalcanti
(1998)[5], indica
a necessidade da seleção de conceitos geográficos, por meio dos quais se
abordarão conhecimentos geográficos diversos. A seleção dos conhecimentos e
conceitos não se faz isolada da definição de abordagens metodológicas que
possam favorecer o ensino/aprendizagem da espacialidade dos fenômenos. Para
Cavalcanti, a abordagem socioconstrutivista seria o aporte metodológico capaz
de favorecer um trabalho de alfabetização espacial, ou seja, um trabalho que
permita aos educandos ler o real por meio dos conhecimentos geográficos.
Não é privilégio dos Geógrafos Construtivistas
trazerem um debate mais geográfico para as aulas de geografia, interpretando a
realidade na sua espacialidade, aproximando e contextualizando o conhecimento
na realidade do aluno. Os Construtivistas criaram um “senso comum” a este
respeito, até porque há uma hegemonia deste pensamento na geografia escolar e
na pedagogia.
A função do professor não é ser um
“facilitador” para o aluno, mas um “complicador” no sentido de permitir,
oferecer e estimular questionamentos. O professor tem de criar contradições na vida
dos alunos. O modelo “escolanovista” e o chamado “Construtivismo” não estão
preocupados com o conteúdo. Este modelo justifica a presença de um professor
mal-preparado em relação aos conteúdos em salas de aula.
O professor deve buscar fazer sempre com que
o aluno tenha acesso ao conteúdo disponível, mas com a devida criticidade e o
necessário rigor metodológico. A priori, a geografia e a escola não formam os
alunos para serem críticos, onde a criticidade tem de ser uma busca e uma
postura educacional do professor perante os alunos. O professor deve ser
crítico, ter critério. Criticar sem denegrir e elogiar sem bajular.
O processo de ensino-aprendizagem está
pautado nas competências e habilidades a serem desenvolvidos pelo aluno e nos
conteúdos desenvolvidos pelo professor. Entretanto, o educando não deve tratar
este conteúdo de maneira massante, este deve superar o “conteudismo” na prática
docente, ou seja, o papel do professor essencial neste processo, mas o foco
deve ser na aprendizagem ou no direito à aprender, onde o conteúdo não é um fim
em si mesmo, mas um recurso para a constituição das competências nos educandos.
Importante ressaltar que a aprendizagem não
anula o ensino ou vice-versa. Neste sentido, SANTOS (s/d, p.20), disse que: “a
escolha dos conteúdos não deve ignorar que, no processo escolar, não são mais
que ferramentas para o desenvolvimento da relação de ensino-aprendizagem”.
Nesta mesma linha de reflexão, concordo com ASCENÇÃO (2009, p.13): “(...) as
práticas pedagógicas com os conhecimentos geográficos deverão trabalhar
conceitos e métodos como ferramentas que contribuam na identificação, descrição
e análise da espacialidade de um fenômeno”.
Já que os conteúdos são importantes no
contexto do processo de ensino aprendizagem, PEREIRA (1999, p.45) diz que
quando falamos da contribuição da geografia escolar para o processo
ensino-aprendizagem:
(...) não estamos mais
falando apenas de informações/conteúdos, mas da geografia e do seu papel dentro
do processo de ensino-aprendizagem. Nesse processo, esse papel deve ser o de
alfabetizar os alunos na leitura da espacialidade dos fenômenos.
Para PEREIRA (1999, p. 46-47), os Conteúdos e
Habilidades no processo de ensino-aprendizagem existem para a “adequação da
abstração dos objetivos em relação às características dos alunos com quem o
professor está desenvolvendo suas atividades”.
Entretanto, a tendência da pedagogia atual é
desvalorizar os conteúdos e se valorizar as “habilidades e as competências”.
Segundo VALENTE (s/d, p.2) esta idéia tem origem no escolanovismo e mais
recentemente na “tendência Tecnicista, com sua ênfase nos objetivos claramente
determinados – objetivos específicos – e na capacidade de realização dos
indivíduos, ou seja, no fazer”. Esta passagem de VALENTE (s/d, p.2) é
esclarecedora:
Na realidade, as
competências significam uma retomada de princípios pedagógicos que já estavam
presentes na tendência educacional denominada Escola Nova ou Renovada que
colocou em prática a teoria educacional de Dewey, datada do final do século
XIX. A Escola Nova tinha o propósito de inverter a ação pedagógica da Escola
Tradicional, dando mais ênfase à ação do que à teoria, levando os alunos a
encontrarem um significado nos conteúdos escolares, à medida em que a escola
partia de suas motivações e interesses e não dos conceitos previamente
estabelecidos. Para tanto, a criança deveria ser preparada, através do
aprendizado da metodologia de resolução de problemas, a lidar com a mudança, a
contingência, a incerteza de um futuro imprevisível.
Esta
idéia de competência não é bem esclarecida pelos pedagogos. VALENTE (s/d, p.4)
cita PERRENOUD (1999, p.19)[6] que diz que: “não existe uma definição
clara e partilhada de competências. A palavra tem muitos significados e ninguém
pode pretender dar a definição.” VALENTE (s/d, p.5) citará mais uma vez
PERRENOUD (1999, p.26) ao dizer que não há sentido em diferenciar competências
e habilidades:
Existe a tentação de
reservar a noção de competência para as ações que exigem um funcionamento
reflexivo mínimo, que são ativadas somente quando o ator pergunta a si mesmo: O
que está ocorrendo? Por que estou em situação de fracasso? O que fazer? Etc
A partir do momento em
que ele fizer “o que deve ser feito” sem sequer pensar porque já o fez, não se
fala mais em competências, mas sim em habilidades ou hábitos. No meu entender,
estes últimos fazem parte da competência... Seria paradoxal que a competência
aparentasse desaparecer no momento exato em que alcança sua máxima eficácia.
VALENTE (s/d, p.4) identifica dois eixos
interpretativos e conceituais de competência: “um que explicita o significado
de competência como ação que envolve uma série de atributos: conhecimentos,
habilidades, aptidão. Neste caso as competências englobam as habilidades” e
“outro que diferencia competências e habilidades, seja conceituando-as
separadamente, ou apenas mencionando-as de forma distinta. Esta é a perspectiva
contemplada no SAEB, no ENEM e nas Diretrizes e PCNs do Ensino Médio.
Mais adiante VALENTE (s/d, p.7-8) cita MACEDO
(1999, p.13)[7] para falar que cada habilidade “é bastante complexa e, se
considerada isoladamente, pode se constituir em uma competência”. Para Macedo,
“a competência é uma habilidade de ordem geral, enquanto a habilidade é uma
competência de ordem particular, específica”.
Neste sentido, compreendo que a Habilidade e
a Competência são interdependentes e só são possíveis se os professores
dominarem os conteúdos. Entretanto, a própria habilidade já é um conteúdo,
sendo uma construção social e mental. SANTOS (s/d, p.20), conclui sua
explanação sobre a relação do conteúdo com o aprendizado da seguinte maneira:
(...) não nos será
possível ensinar sem o uso de conteúdos (a maior parte deles, quando
sistematizados, aparecem como componentes curriculares), mas, por outro lado,
nenhum deles deve ter sua presença garantida no processo escolar se não estiver
subordinado aos objetivos da relação ensino-aprendizagem.
Atualmente estamos vivendo num estágio
avançado do desenvolvimento capitalista, podemos dizer que vivemos na “sociedade
do conhecimento”. Alguns autores refletem sobre a chamada “sociedade do
conhecimento”, tais como HARGREAVES (2003) e DUARTE (2001), afirmando que esta
é ilusória e ideológica.
Graças aos avanços tecnológicos e produtivos,
o Modo de Produção Capitalista mudou. Entretanto, concordo com DUARTE (2001, p.
39)[8] quando
diz que estas mudanças no capitalismo:
(...) não significa que
a essência da sociedade capitalista tenha se alterado, isso não significa que
estejamos vivendo uma sociedade radicalmente nova, que pudesse ser chamada de
sociedade do conhecimento.
A assim chamada
sociedade do conhecimento é uma ideologia produzida pelo capitalismo, é um
fenômeno no campo da reprodução ideológica do capitalismo. (...) a sociedade do
conhecimento é, por si mesma, uma ilusão que cumpre uma determinada função
ideológica na sociedade capitalista contemporânea.
E qual seria a função
ideológica desempenhada pela crença na assim chamada sociedade do conhecimento?
No meu entender seria justamente a de enfraquecer as críticas radicais ao
capitalismo e enfraquecer a luta por uma revolução que leve a uma superação
radical do capitalismo, gerando a crença de que essa luta teria sido superada
pela preocupação com outras questões “mais atuais” tais como a questão da ética
na política e na vida cotidiana, pela defesa dos direitos do cidadão e do
consumidor, pela consciência ecológica, pelo respeito às diferenças sexuais,
étnicas ou de qualquer outra natureza.
Concordo com DUARTE (2001, p.39-40) ao
afirmar que a “sociedade do conhecimento” proporcionaria ilusões, tais como: a
falácia da democratização do conhecimento; a falácia de que se “mobilizar
conhecimentos” seria mais importante que a “aquisição de conhecimentos teóricos”
(estando “superadas” as “grandes sínteses teóricas sobre a história, a
sociedade e o ser humano”); a falácia em dizer que o conhecimento não ser a “apropriação
da realidade pelo pensamento”, mas uma “construção subjetiva resultante de
processos semióticos intersubjetivos nos quais ocorre uma negociação de
significados” ( o que conferiria validade ao conhecimento seriam os “contratos
culturais”, sendo este uma “convenção cultural”); a falácia de que todos os
conhecimentos têm o mesmo valor (não havendo uma hierarquia quanto à “qualidade
ou quanto ao seu poder explicativo da realidade natural e social”); e a falácia
de que a “consciência dos indivíduos” constituiria o “caminho para a superação
dos grandes problemas da humanidade” (os problemas existem como conseqüência de
determinadas mentalidades).
Para a reprodução do Modo de Produção
Capitalista, o Estado tem de intervir para que a produção na sociedade
capitalista ocorra de maneira organizada e sem percalços. Neste sentido o
Estado utilizará de suas várias Instituições para a consolidação destes
espaços. A escola, a educação estatal e a geografia escolar se tornarão um
importante instrumento para o desenvolvimento do capitalismo.
Referências
Bibliográficas:
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Pedagogias do “Aprender a Aprender” e Algumas Ilusões da Assim Chamada
Sociedade do Conhecimento. In:
Revista Brasileira de Educação Set/Out/Nov/Dez 2001 Nº 18, Rio de Janeiro:
Editora Autores Associados Ltda, 2001.
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Trabalho foi originalmente apresentado na Sessão Especial intitulada Habilidades
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2001, Caxambu, MG.
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