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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
segunda-feira, 26 de junho de 2017
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
terça-feira, 12 de julho de 2016
A profissão do geógrafo segundo o Pequeno Príncipe
"_ Que é um geógrafo?
_ perguntou o principezinho.
_ E um especialista que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as montanhas, os desertos.
_ Isso é bem interessante_ disse o pequeno príncipe.
_ Eis, afinal, uma verdadeira profissão! E lançou um olhar, ao seu redor, no planeta do geógrafo."
(EXUPÉRY, Antoine Saint-, "O pequeno príncipe")
_ perguntou o principezinho.
_ E um especialista que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as montanhas, os desertos.
_ Isso é bem interessante_ disse o pequeno príncipe.
_ Eis, afinal, uma verdadeira profissão! E lançou um olhar, ao seu redor, no planeta do geógrafo."
(EXUPÉRY, Antoine Saint-, "O pequeno príncipe")
domingo, 22 de novembro de 2015
RESENHA LIVRO: ENSAIO SOBRE a CEGUEIRA
repasso reflexão-trabalho que fiz em 2005 na época estava na graduação do curso de geografia.
Feito conjuntamente com Marcos Roberto Soares Monteiro e Michele Tomeo Pacheco.
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Bibliografia
Feito conjuntamente com Marcos Roberto Soares Monteiro e Michele Tomeo Pacheco.
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RESENHA LIVRO: ENSAIO SOBRE a CEGUEIRA
“Pouco importa
venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.”
O processo de “desumanisação” nas relações sociais é abordado por Saramago também é perceptível no documentário Cronicamente Inviável, no qual é retratada a contradição social nas situações cotidianas, identificada no desfile de carnaval ou no tráfico de órgãos.
No livro podemos ver que o “Ter” tornou-se uma palavra de ordem na composição das relações humanas, as quais contribuíram num dado momento para o distanciamento e a “simplificação” dos sentimentos.
Os elementos contidos nesse nos permitem fazer uma leitura dos sentimentos de amor e afeto que são comercializados e reduzidos na sociedade capitalista, que busca unicamente a reprodução do capital e não de uma ampliação do potencial humano. Visto dialeticamente, o caos é pressuposto e necessidade produtiva de nossa sociedade que se materializa em fenômenos ou em ações sociais.
Entendemos que o urbano é uma pré-condição e também uma materialização das relações produtivas capitalistas, por se expressar no “modo de vida” dos sujeitos. O livro pode ser compreendido como uma metáfora de como o urbano e os signos da modernidade podem ser cruéis e alienantes.
A “desumanização” dos indivíduos na sociedade pode ser visto na letra de música a seguir:
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.”
(DRUMMOND, 1993: 159.).
O presente trabalho destina-se a fazer alguns apontamentos sobre a obra Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago, que nos permite visualizar logo de início a condição humana na sociedade contemporânea. Esta é composta essencialmente por relações sociais desiguais, que contribuem decisivamente na miséria social, política e econômicas, além de manter e reproduzir o status quo.
Este brilhante “livro de
ficção” publicado inicialmente em 1995, retrata a cegueira social que se
expressa nas relações pessoais dos indivíduos em uma sociedade estruturada na
opressão e na desigualdade social. Estamos constantemente suscetíveis a uma
“cegueira branca” pelas relações sociais banalizadas e fetichizadas expressadas
nas questões cotidianas, podendo usar como exemplo o incidente ocorrido em
Brasília no ano de 1996, onde jovens de classe média atearam fogo em um índio
sem-teto somente por “diversão”.O processo de “desumanisação” nas relações sociais é abordado por Saramago também é perceptível no documentário Cronicamente Inviável, no qual é retratada a contradição social nas situações cotidianas, identificada no desfile de carnaval ou no tráfico de órgãos.
No livro podemos ver que o “Ter” tornou-se uma palavra de ordem na composição das relações humanas, as quais contribuíram num dado momento para o distanciamento e a “simplificação” dos sentimentos.
Os elementos contidos nesse nos permitem fazer uma leitura dos sentimentos de amor e afeto que são comercializados e reduzidos na sociedade capitalista, que busca unicamente a reprodução do capital e não de uma ampliação do potencial humano. Visto dialeticamente, o caos é pressuposto e necessidade produtiva de nossa sociedade que se materializa em fenômenos ou em ações sociais.
Entendemos que o urbano é uma pré-condição e também uma materialização das relações produtivas capitalistas, por se expressar no “modo de vida” dos sujeitos. O livro pode ser compreendido como uma metáfora de como o urbano e os signos da modernidade podem ser cruéis e alienantes.
A “desumanização” dos indivíduos na sociedade pode ser visto na letra de música a seguir:
“Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranqüilo, quem sabe?
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios...
Qual, não tem de que
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo, talvez nos vejamos
Quem sabe?
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo...
Tanto coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa rapidamente
Pra semana...
O sinal...
Eu procuro você...
Vai abrir!!! Vai abrir!!!
Eu prometo, não esqueço, não esqueço
Por favor, não esqueça
Adeus... Adeus...”
(Paulinho da Viola, 1970.).
Este samba de Paulinho da Viola retrata a superficialidade das relações sociais de nossa sociedade que inevitavelmente impede que haja uma reprodução de relações afetivas ou de vivências menos rápidas em detrimento da rapidez nas atitudes ou nas conversas.
Ironicamente este livro começa com um personagem perdendo a visão no seu carro esperando o semáforo (ou sinal para os cariocas como Paulinho da Viola) se abrir. Interessante ressaltar que nenhum personagem possui nome, o que é entendido como uma parábola da modernidade onde somos apenas mais um inserido no mercado consumidor e nas atividades produtivas capitalistas.
As situações descritas por Saramago nada mais são
do que uma crítica sobre o simulacro social vivenciada pela sociedade “moderna”
ou urbana, as quais são digeridas de forma superficiais e desiguais, com uma
tentativa de auto-superações do tempo pelos indivíduos favorecendo a expansão
da “Cegueira Branca” ou uma fragilização do indivíduo, conforme nos relata o
autor:Ironicamente este livro começa com um personagem perdendo a visão no seu carro esperando o semáforo (ou sinal para os cariocas como Paulinho da Viola) se abrir. Interessante ressaltar que nenhum personagem possui nome, o que é entendido como uma parábola da modernidade onde somos apenas mais um inserido no mercado consumidor e nas atividades produtivas capitalistas.
“Passada uma semana, os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. Assim, simplesmente, Tragam-nos mulheres. Esta inesperada, ainda que não de todo insólita, exigência causou a indignação que é fácil imaginar, os aturdidos emissários que vieram com a ordem votaram logo lá para comunicar que as camaratas, as três da direita e as duas da esquerda, sem excepção dos cegos e cegas que dormiam no chão, haviam decidido, por unanimidade, não atacar a degradante imposição, objectando que não se podia rebaixar a esse ponto a dignidade humana, neste caso feminina, e que se na terceira camarata lado esquerdo não havia mulheres, a responsabilidade, se a havia, não lhes poderia ser assacada. A resposta foi curta e seca, Senão nos trouxerem mulheres, não comem. Humilhados, os emissários regressaram às camaratas com a ordem, Ou vão lá, ou não nos dão de comer. As mulheres sozinhas, as que não tinham parceiro, ou não tinham fixo, protestaram imediatamente, não estavam dispostas a pagar a comida dos homens das outras com o que tinham entre pernas, uma delas teve o mesmo atrevimento de dizer, esquecendo o respeito que devia ao seu sexo, Eu sou muito senhora de lá ir, mas o que ganhar é para mim, e se me apetecer fico a viver com eles, assim tenho cama e mesa garantida. Por estas inequívocas palavras o disse, mas não passou aos actos subsequentes, lembrou-se a tempo do mau bocado que iria ser se tivesse de agüentar sozinha o furor erótico de vinte machos desenfreados que, pela urgência, pareciam estar cegos de cio. Porém, esta declaração, assim levianamente proferida na segunda camarata lado direito, não caiu em cesto roto, um dos emissários, com particular sentido de ocasião, deitou-lhe logo a mão para propor que se apresentassem voluntárias ao serviço, tendo em conta que o que se faz de moto próprio custa em geral menos do que o que tem de fazer-se por obrigação.”
(SARAMAGO, 2000: 165.).
A seguinte passagem nos dá margem para fazer uma breve leitura da sociedade contemporânea onde os sentimentos são abstraídos e o contato com o outro cada vez mais é reduzido, ora pelo medo, ora pela violência das ruas, ora pelo estresse ocasionado pela poluição sonora, visual ou pelo ritmo incessante do dia-à-dia dos grandes centros comerciais, tais como São Paulo, Rio de Janeiro ou Nova Iorque.
Isso nos coloca frente na possibilidade de analisar os valores éticos e morais que estão sofrendo vicissitudes no processo de expansão das metrópoles, que por sua vez favorecem o crescimento de atitudes individualistas, como no isolamento social, possibilitando também o surgimento de “doenças” consideradas “modernas”, tais como a Síndrome de Pânico, Fobia Social entre outras. A seguinte passagem nos permite reforçar o resultado deste processo social:
“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.”
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.”
(DRUMMOND, 1993: 159.).
Todavia nota-se um distanciamento do outro provocado tanto pelo medo e a insegurança, quanto pela falta de afeto numa vida que perdeu o sentido de ser e de existir, numa sociedade onde os sentimentos são tratados de maneiras descartáveis numa briga individualista pelo consumo.
O poema “Os Ombros Suportam o Mundo” de Carlos Drummond de Andrade também esboça as idéias contidas no romance: “Ensaio Sobre a Cegueira”, em relação aos sentimentos de angústia e medo que são visíveis nas grandes metrópoles.
Os sentimentos como angústia, medo e tensão refletem na situação de algumas nações, tais como o Argentina onde o Estado perdeu o controle da situação político-econômica que deu margem para expansão e vulgarização da violência presente nas interações cotidianas, levando a sociedade a uma verdadeira “cegueira branca”, praticamente uma guerra civil. Situação semelhante ocorre atualmente na cidade estadunidense de Nova Orleans, onde transpareceu a animalidade e o individualismo humano depois da passagem do furacão Catrina. O bojo desta situação pode ser evidenciado na música a seguir:
“O movimento começou, o lixo fede nas calçadas.
Todo mundo circulando, as avenidas congestionadas.
O dia terminou, a violência continua.
Todo mundo provocando todo mundo nas ruas.
A violência está em todo lugar.
Não é por causa do álcool,
Nem por causa das drogas.
A violência é nossa vizinha,
Não é só por culpa sua,
Nem é só por culpa minha.
Violência gera violência.
Violência doméstica, violência cotidiana,
São gemidos de dor, todo mundo se engana...
Você não tem o que fazer, saia pra rua,
Pra quebrar minha cabeça ou pra que quebrem a sua.
Violência gera violência.
Com os amigos que eu tenho não preciso inimigos.
Aí fora ninguém fala comigo.
Será que tudo está podre, será que todos estão vazios?
Não existe razão, existe motivos.
Não adianta suplicar porque ninguém responde,
Não adianta implorar, todo mundo se esconde.
É difícil acreditar que somos nós os culpados,
É mais fácil culpar deus ou então o diabo.”
(TITÃS, 1987.).
A passagem mencionada situa-se no contexto sociopolitico contemporâneo, de uma fragmentação dos sentimentos, tais como o amor ou companheirismo. Ainda assim, os questionamentos apresentados nos dão a possibilidade de elucubrar, sobretudo, a respeito da violência contida em cada indivíduo, que pode ser extravasada num dado momento, ora no serviço através do ritmo incessante da linha de produção, ora na falta de tolerância com a diferença ou a dificuldade.
Podemos ver durante o livro a complexidade do viver da humanidade, que luta incessantemente pela sobrevivência, tentando superar a fome no sentido amplo da palavra. O medo ou o desconhecimento são instrumentos mantenedores da ausência do diálogo, ainda mais no sistema capitalista, em que o homem é apenas um número no mercado consumidor.
Em contrapartida aos avanços tecnológicos temos uma sociedade extremamente sectária que vive num eterno dilema entre a racionalização da informação e a necessidade de saber ouvir o outro. Os sentimentos como o afeto, atenção e respeito pelo próximo foram perdendo o sentido ao longo da história da humanidade, conforme pode verificado na seguinte passagem:
“Se há remédio para isto, precisamos ambos dele, Recordou-me de o senhor doutor me ter dito que depois de operado nem iria reconhecer o mundo em que vivia, nesta altura sabemos quanta razão tinha, Quando foi que cegou, Ontem à noite, E já o trouxeram, O medo lá fora é tal que não tarda que comecem a matar as pessoas quando perceberem que elas cegaram, Aqui já liquidaram dez, disse uma voz de homem, Encontre-os, respondeu o velho da venda preta simplesmente, Eram de outra camarata, os nossos, enterrámo-los logo, acrescentou a mesma voz, como se terminasse um relatório. A rapariga dos óculos escuros tinha-se aproximado, Lembra-se de mim, levava uns óculos escuros postos, Lembro-me bem, apesar da minha catarata lembro-me que era muito bonita, a rapariga sorriu, Obrigada, disse, e voltou para o seu lugar. Disse de lá, Está aqui também aquele menino, Quero a minha mãe, disse a voz do rapazito, como cansada de um choro um choro remoto e inútil. E eu sou o primeiro que cegou, disse o primeiro cego, estou com a minha mulher, E eu sou a empregada do consultório.” (SARAMAGO, 2000: 120.).
É interessante como esta “cegueira social” se expande nas relações sociais dos personagens, com os cegos gradualmente perdendo a humanidade. Foi deprimente perceber os atos realizados pelos dirigentes do Estado capitalista ou seus funcionários (como os guardas) com os cegos, que se importavam somente com a manutenção da “ordem” e com a não interferência nas relações produtivas.
Além dos guardas terem fuzilado muitos cegos indefesos, os dirigentes do Estado tiveram a infeliz idéia de utilizar um manicômio de abrigo para os cegos, transformando o local em um “depósito” de inválidos e de “perigosos” sujeitos. Isto se assemelhou com as ações “higienistas” que o governo nazista de Adolf Hitler realizou com a população alemã (especialmente os judeus e comunistas) nos anos 30 e 40 do século passado, as quais podem ser identificadas no filme: Arquitetura da Destruição.
Os fatores descritos também nos favorecem ter uma abordagem ampla que nos possibilita visualizar como as interações sociais são resultantes das relações produtivas e materiais de um grupo social. A situação de cegueira aliada com uma impossibilidade material e do ambiente vivido nos permite verificar como a sociedade capitalista e as relações sociais individualistas são cruéis com os indivíduos que não tem em momento algum respeitado suas individualidades.
É importante destacar a difícil situação vivenciada pela mulher do oftalmologista, pois podia enxergar todas as arbitrariedades realizadas pela sociedade e todo processo de decadência da humanidade dos cegos. Ela estava numa sinuca de bico, pois tinha a responsabilidade de enxergar por todos e vivia constantemente com pena e raiva dos cegos (os internos e os dirigentes do governo) e com um forte remorso de sua situação “vantajosa” perante os demais.
Diante das questões mencionadas podemos também identificar como o conhecimento se fragmenta e se vulgariza. Num dado momento passa a atender uma parcela reduzida da sociedade mundial, como nas questões referentes à manipulação e a sonegação do conhecimento, tais como na biopirataria (realização de patentes pela Monsanto) ou na fragmentação do saber pelo cartesianismo.
A leitura deste livro somente reforça a importância da utilização da arte para as análises científicas, pois além de situar o imaginário do escritor, localiza as preocupações e vivências dos indivíduos nesta sociedade, que impõe constantemente aos “cidadãos” um bojo de ações e papéis sociais através das superestruturas e aparatos repressores e ideológicos. A realidade e seus sujeitos são entendidos dialeticamente como sendo objetiva e subjetiva, sendo resultados das necessidades produtivas e sociais.
Buscamos passar longe de niilismos ou estar abarcado numa perspectiva comodista do ser humano e da realidade, pois entendemos ser necessária a existência de uma perspectiva de mudança completa da realidade das coisas, ou seja, acreditar que um sistema baseado na exclusão e diferenciação de classes, tal qual o capitalista, tenha de ser combatido e derrotado.
Como muito bem é mostrado no livro de Saramago, jamais devemos “dar uma face humana” ao capitalismo, pois este é desumano em sua essência. Também temos de visualizar que é muito problemático pensar que devemos transformar o que é “possível”, pois isto pode beirar o reformismo. Após o fechamento dos olhos temos de sonhar com o impossível, pois além do sonho ser o “patrono da ciência” é o que move a realidade e nos possibilita recuperar a lucidez e o afeto humano.
Bibliografia
ANDRADE,
Carlos Drummond de. A Rosa do Povo, São Paulo, Editora Circulo do livro, 1945,
pp.197.
ANDRADE,
Carlos Drummond de. Corpo, 16 ª Edição, Rio de Janeiro, Editora Record, 202, pp.
168.
ANDRADE,
Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo, 5ª Edição, Rio de Janeiro, Editora Record,
1993, pp. 176.
Associação
Palas Athenas. Valores que não têm Preço – Textos para Aprofundamento e Reflexão, pp.87.
CARVALHO,
Marcos Bernardino, “Geografia e Complexidade”. In Silva, A. A. D. & Galeno, A.
(orgs.). Geografia, ciência do complexus. Porto Alegre: Editora Sulina,
2004.
MORIN,
Edgard. Introdução ao Pensamento Complexo. Lisboa: Instituto Piaget,
1991.
SARAMAGO,
José. O Ensaio Sobre a Cegueira, São Paulo, Editora Companhia das
Letras, 2000, pp. 310.
DISCOGRAFIA
BARÃO Vermelho, Supermercados da Vida,
1991.
BARÃO Vermelho, Carne Crua, 1994.
GAVIN,
Charles & Brito, Sérgio. Trecho Extraído da Letra “Violência” do CD: Jesus
não tem Dentes no País dos Banguelas - Titãs, 1987.
TITÃS,
Cabeça
Dinossauro, 1986.
VIOLA,
Paulinho da, Letra “Sinal Fechado” do CD: Foi um Rio que Passou em Minha Vida,
1970.
OS ARQUETIPOS SOCIOCULTURAIS que CONSTITUEM o FENÔMENO DA GEOGRAFIA NA PAISAGEM NO FILME: VIDAS SECAS de NELSON PEREIRA dos SANTOS
repasso reflexão-trabalho que fiz em 2005 na época estava na graduação do curso de geografia.
Feito conjuntamente com Marcos Roberto Soares Monteiro.
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Nesta perspectiva aglutinadora e “hologeica”, concebemos no filme uma concatenação de imagens que pode ser inicialmente identificada no “dialogo quase inexistente” ou rústico entre uma família de retirantes nordestinos ou na relação com a sociedade local. Temos como personagens principais esta família na figura de Fabiano (Pai), de Sinhá Vitória (Mãe), o menino mais novo, o menino mais velho e a cadela Baleia que possui a humanização como característica primordial.
Feito conjuntamente com Marcos Roberto Soares Monteiro.
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OS
ARQUÉTIPOS SOCIOCULTURAIS QUE CONSTITUEM O FENÔMENO DA GEOGRAFIA NA PAISAGEM NO
FILME: VIDAS SECAS DE NELSON PEREIRA DOS
SANTOS
INTRODUÇÃO
As linguagens artística
ou científica, tais como a cinematográfica e a geográfica, proporcionam
inúmeras possibilidades de interpretações da realidade de maneira subjetiva, ou
seja, de acordo com os interesses políticos, econômicos ou culturais, os quais tornam-se latentes em Vidas Secas.
Neste
sentido, a interpretação cinematográfica contida no filme Vidas Secas, realizado em 1963, tendo como referencial as práticas
sociais de um lugar onde as pessoas encontram-se subsumidas à práticas e a
relações sociais que expressam a “desumanização” dos indivíduos em sua
essência.
Retrata
poeticamente, “escrachadamente” e “realisticamente” questões antigas e que
infelizmente ainda fazem parte no cotidiano do sertão nordestino brasileiro,
demonstrando como a crueldade da sobrevivência dos “fortes sertanejos” na
peleja local. De maneira brilhante e angustiante são relatadas relações sociais
como o êxodo rural, a fome dos despadecidos, a problemática do latifúndio e o
coronelisno. Muitos destes aspectos também podem ser visualizados nos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Cangaceiro, O Pagador de Promessas e Morte
e Vida Severina, considerados ícones do “cinema novo” brasileiro, por
buscar ser o mais realista possível, além de transparecer as contradições
sociais ou luta de classes, sob forte influência dos ideais de esquerda ou
comunista que pairavam na época.
Linguagens ou formas de expressão de fatos reais ou
“fictícios” através do recurso da imagem e do som, constroem uma identidade que
está imbricamente relacionada com o processo de alteração da paisagem, a qual é
caracterizada como um dos objetos de analise do geógrafo.
Portanto,
este trabalho visa elucubrar, sobretudo, as contradições socioculturais
verificadas no filme que é uma adaptação da obra literária Vidas Secas de Graciliano Ramos. Também buscaremos situá-la no
tempo e no espaço, fazendo um paralelo entre o filme Vidas Secas, a ciência geográfica e o cinema.
A GEOGRAFICIDADE PRESENTE NA PAISAGEM CINEMATOGRÁFICA DE VIDAS SECAS
A
realidade é uma totalidade, ou seja, ela é resultado de um bojo de relações
sociais que é ditada em sua organização produtiva. Ela se expressa em
fenômenos, os quais possuem uma dimensão aparente que pode ser desnudada pela
leitura humana através das ciências e da arte.
Contudo,
podemos conceber a aparência como o “início do conhecimento” e uma manifestação
concreta da essência ou do conteúdo das coisas. A aparência materializa-se
tanto nas leituras científicas formais ou incompletas, assim como nos objetos e
fenômenos da realidade.
Podem
ser compreendidas como exemplos fenomênicos da realidade, o espaço entendido
aqui como território, assim como as relações sociais existentes, as quais são
materializadas nas instituições, nas pessoas ou na produção subjetiva (arte e
ciência). A paisagem é a expressão da dimensão aparente do território, assim
como uma letra de música de um compositor popular ou uma representação
cinematográfica podem servir para a compreensão das relações produtivas da
sociedade.
Neste
sentido verifica-se que:
“(...)
temos de entender o conteúdo para podermos entender a forma e também admitir
que ela, uma vez constituída, influencia tanto na própria forma, quanto no
conteúdo”.
(PEREIRA, 2003: 11)
Seguindo
as reflexões, percebemos nesta passagem de Florestan Fernandes, a relação da
arte com a estrutura social:
“Há uma estreita dependência entre sociedade e cultura, entre
estrutura social e vida intelectual (...), de modo que qualquer modificação ou
transformação sofrida pela primeira, reflete-se nas esferas da segunda. Ora, a
sociedade liberal-democrática do ocidente está em crise; ela passou ou está
passando de seu estado de sociedade liberal-democrática de minorias para o de
massas. Em conseqüência, os fatores sociais que agiram nessa transformação vão
também agir sôbre a vida intelectual: a produção e a utilização (...) da
cultura e as relações entre o autor e o público, que dependem estreitamente de
certas condições sociais se transformam à medida que aquelas condições se
modificam. Por isso, a vida intelectual também está ameaçada pelos dois
princípios, mutuamente antagônicos, o liberal "laissez-faire" e a
regulamentação, que lutam no campo econômico. Êle se arrisca a todos os perigos
que decorrem do funcionamento sem nenhuma direção das sociedades democráticas
de massas, que se tornam mais graves e agudos quando as formas liberais são
substituídas por formas ditatoriais de regulamentação”.
(FERNANDES, Folha da Manhã, 1944).
Nesta perspectiva aglutinadora e “hologeica”, concebemos no filme uma concatenação de imagens que pode ser inicialmente identificada no “dialogo quase inexistente” ou rústico entre uma família de retirantes nordestinos ou na relação com a sociedade local. Temos como personagens principais esta família na figura de Fabiano (Pai), de Sinhá Vitória (Mãe), o menino mais novo, o menino mais velho e a cadela Baleia que possui a humanização como característica primordial.
A linguagem
cinematográfica neste filme pode ser considerada como uma interpretação do real
artisticamente, fundindo brilhantemente o “espaço interno” (dos personagens)
com o “espaço externo” (lugar). Verificamos uma realidade miserável que
infelizmente ainda se perpetua em alguns estados brasileiros, em especial no sertão
nordestino. É perceptível algumas determinações sociais e produtivas impostos
na família de retirantes, como no constante deslocamento territorial que
realizam em busca de emprego ou de uma parca satisfação pessoal, cujo “sonho de
consumo” era “ter uma cama de couro igual da do Tomás da Bolandeira”.
Este movimento de “êxodo
rural” da família retirante é demonstrado tanto no começo quanto no final do
filme, talvez querendo enfatizar a triste realidade dos tantos Fabianos, Josés,
Marias ou Severinos que além de se assemelharem, perduram historicamente,
apesar da luta que realizam para superar estas contradições ou situações
sociais.
A miséria cotidiana dos sertanejos (Ver Anexo Foto) é perceptível em algumas situações
dramáticas, os quais muitas vezes não se acomodavam com sua situação e buscavam
meios paralelos de sobrevivência entendendo que “viver no mato não é vida de
gente”.
Um filme pode ser encarado como construtor de uma paisagem ou de uma versão do real, tanto a partir do ponto de vista da subjetividade de quem o criou, quanto de quem o vê, ou seja, constroem-se várias leituras geográficas do real, através da absorção conjunta da imagem, do som e da fotografia, cujo sentido pode ser evidenciado na passagem a seguir:
Um filme pode ser encarado como construtor de uma paisagem ou de uma versão do real, tanto a partir do ponto de vista da subjetividade de quem o criou, quanto de quem o vê, ou seja, constroem-se várias leituras geográficas do real, através da absorção conjunta da imagem, do som e da fotografia, cujo sentido pode ser evidenciado na passagem a seguir:
“Ao olhar uma paisagem, por
exemplo, o que de imediato vem à nossa percepção é a pluralidade cultural e a
individualidade do mundo percebido. Todavia, a transposição do supra-sensível
faz-nos ultrapassar a imediatez do múltiplo individual com que este se
apresenta, colocando-nos diante dele como uma totalidade estruturalmente
articulada e integrada. O que acontece é que a Ciência faz este movimento de
totalização pela via do conceito e a arte pelo caminho mais livre dos símbolos
e da significação, enfatizando o sentido e o significado. Nem por isto
entretanto um expressa com mais correção a captação do real que a outra.”
(MOREIRA, 2004: 189).
Esta passagem reforça a
importância de utilizarmos a arte em nossas analises na realidade, sem querer
desqualificar ou reduzir sua importância. Verifica-se que existe uma linha
muito pequena que pode diferenciar a arte da ciência.
Entende-se
que o filme possui uma dimensão geográfica ou geograficidade por ter uma forma
ou conformação territorial, que é perceptível aparentemente nas paisagens, e
também na abrangência escalar das relações sociais específicas.
Porquanto,
esta geograficidade pode ser expandida se concebermos, visualizarmos a dimensão
territorial das relações sociais e produtivas dos personagens do filme. Neste
sentido, o espaço está subsumido à existência, demonstrando que os usos (forma)
definem o conteúdo e são imprescindíveis no desvendamento do conteúdo.
Verifica-se diante
desta constatação que os sertanejos estão intrinsecamente ligados ao lugar onde
vivem, tendo em vista que os lugares são visualizados através dos homens e que
o homem só o é por ser o “homem-no-mundo”. Longe de realizar leituras
fenomenológicas desprendidas da totalidade social, entende-se que para as
coisas acontecerem, estas tem de ocorrer em lugares, transformando as coisas
também em lugares. Esta passagem de Moreira é bem significativa:
“A relação entre Geografia,
História e Letras não é só possível, como de fato existe. E o que embasa esta
relação é a categoria do espaço.
Normalmente se diz que para
entendermos uma obra precisamos contextualizá-la no tempo. Mas não se fala em
inseri-la no contexto do espaço. Habitualmente, o espaço fica abstraído da
contextualização de uma obra. E, no entanto, a contextualização do tempo só é
possível quando a contextualidade no espaço fica estabelecida. Porque não
existe tempo fora do espaço, e espaço fora do tempo, uma vez que o real é
espaço-temporal”.
Não há romance que possa
falar da problemática humana – e até prova em contrário a problemática humana é
o tema tanto da Literatura como da História e da Geografia –, fora da sua
contextualidade espaço temporal”.
(MOREIRA, 2004: 187).
Esta instigante passagem ressalta a validade da
relação existente entre arte e geografia, mas também demonstra a importância de
se ter uma perspectiva territorial das coisas, formando algo compreendido como
um “tempo espacial” ou um “materialismo histórico-geográfico dialético” como
sistema filosófico. Tais afirmações buscam passar longe de se realizar um
“determinismo geográfico”, estar impondo a leitura geográfica para outras
linguagens ou mesmo conceber a realidade como inata. Entendemos que novas
perspectivas analíticas e científicas possam estar sendo disponibilizadas, além
de colocar a compreensão de que existem determinações na realidade e uma
objetividade que são de suma importância para a compreensão do real.
O filme Vidas Secas nos permite compreender
minimamente as relações desiguais da sociedade contemporânea e urbana, criando
uma “cegueira branca”, fato problematizado por José Saramago no livro Ensaio Sobre a Cegueira. Também
retratada no filme, vemos neste livro uma cegueira social abarcando uma
sociedade desumanizada e animalizada.
Neste sentido, o processo de concepção de uma
paisagem e de uma geografia existentes na obra Vidas Secas, nos possibilita evidenciar fatos que ainda são
presentes na sociedade contemporânea, tais como o latifúndio e do trabalho
escravo vivenciado em algumas regiões, como no norte, no nordeste e no Centro
Oeste brasileiro, ou seja, num olhar autodiegético, que por sua vez é
transmitida através da linguagem cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos.
RELAÇÕES SOCIAIS E PRODUTIVAS DOS PERSONAGENS
NO MEIO AMBIENTE
“E o sertão continuaria a mandar para
cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos” (Graciliano Ramos).
O “meio ambiente” aqui é
compreendido como algo mais amplo, ou seja, inserido na totalidade das relações
mundanas, sendo o ser humano elemento integrante com seus usos no espaço,
muitas vezes preponderante em relações aos demais seres e cruel com outros de
sua espécie.
O meio ambiente é fruto
das relações naturais e sociais subsumidos à lógica perversa do modo de
produção capitalista, mas também é determinante nas ações e nos usos mundanos e
humanos. As relações sociais que criam a realidade, ora no meio ambiente ou
numa região, podem ser mais bem compreendidas no trecho a seguir:
“Uma
‘região’ seria, em suma, o espaço onde se imbricam, dialeticamente uma forma
especial de reprodução do capital, e por conseqüência uma forma especial da
luta de classes, onde o econômico e o político se fusionam e assumem uma forma
especial de aparecer no produto social e nos pressupostos da reposição. Tal
especificidade é passível de determinação rigorosa, no contexto metodológico e
teórico esposado por esta investigação. É possível reconhecer a existência de
espaço econômico – político – sociais onde, por exemplo, o capital comercial
comanda as leis de reprodução sem no entanto penetrar propriamente na produção;
tal região se diferenciaria de uma outra onde o capital penetrou no próprio
sistema produtivo, onde seria o capital industrial – em sentido lato, pois a
agricultura capitalista também é uma industria – o responsável pela reprodução
do sistema; assim, sucessivamente, as diversa formas de reprodução do capital
conformariam em ‘regiões’ distintas.
(OLIVEIRA, 1981: 29).
Diversas, situações
presentes no filme nos remetem tecer reflexões e compará-las com as
problemáticas contemporâneas da sociedade brasileira, tais como a concentração
de renda, as contradições na vida desumana dos sertanejos, a seca no semi-árido
de um povo sem perspectiva de vida e a disparidade social que ainda é muito
discrepante.
A vida sofrida dos
sertanejos contrasta-se com a da família do “coronel” ou dos ricos da cidade,
tendo na riqueza dos segundos advindos da miséria dos primeiros. Entretanto,
não havia distinção de classes sociais na “brutalidade” dos seres humanos neste
ambiente “hostil”, que penavam em se comunicar diretamente.
Interessante verificar
dois aspectos dos personagens do filme, pois, além da humanização da cadela
Baleia temos uma ausência de nomes nos filhos de Fabiano e Sinhá Vitória.
Talvez Graciliano Ramos queira ressaltar poeticamente a grave situação de
estarmos numa terra onde os seres humanos são tratados progressivamente como
“coisas” ou mercadorias, utilizando-se da figura e da ausência de nome das
crianças como metáfora desta trágica e cômica realidade.
Neste lugar há um
processo de “desumanização” parecida com a ocorrida no livro “Ensaio Sobre a
Cegueira” de José Saramago, onde os poucos sinais de humanidade são
“desmanchados no ar” hipoteticamente e ironicamente pelas desventuras e
imposições do ambiente.
Podemos apontar como
”brechas sociais” ou “suspiros de relações afetivas”: a curiosidade e a
ingenuidade das crianças que vão gradativamente perdendo suas inocências; a
humanização da cadela Baleia que muitas vezes realiza função de pai e ao mesmo
tempo de mãe das crianças; o fato de Sinhá Vitória ser a única
semi-alfabetizada e capaz de realizar contas complexas na família; o perdão de
Fabiano ao soldado que o espancou egoístamente; além das manifestações
culturais e religiosas dos pobres nos festejos e rezas.
Evidencia-se a ação
coercitiva do Estado burguês ou do intitulado “governo” na figura do soldado
amarelo, dos
coronéis e dos funcionários da prefeitura com os pobres moradores do lugar
vivenciado. O personagem Fabiano tenta achar outras fontes da parca renda
familiar sem ser na labuta de vaqueiro, ao tentar vender “pedaços de porco”
ambulantemente nas ruas da cidade, mas é imediatamente impedido por um
funcionário da prefeitura, que lhe diz estar fazendo uma prática ilegal e
deveria “pagar o imposto de venda”, fator impeditivo para a prática comercial
de Fabiano.
Este trecho retrata
sinteticamente a triste e cruel sobrevivência da família neste “ambiente hostil
e desperançoso”:
“Eles chegaram
numa fazenda, instalaram-se numa casinha abandonada, até que o dono das terras
vem despejá-los. Mas Fabiano convence-o de que é bom vaqueiro, que pode
trabalhar para ele. E, pouco a pouco, começam tempos de prosperidade: já podem
comer melhor, até comprar roupas novas para ir à procissão na cidade. Mas o
massacre vem de toda a parte. O fazendeiro, a pretexto de cobrar juros, paga
muito menos do que deve a Fabiano.
Quando o
vaqueiro tenta vender um pedaço de carne, logo surge funcionário da prefeitura
querendo lhe cobrar imposto, apoiado pelo Soldado Amarelo.”
(SALEM, 1987: 179).
As relações climáticas
em conjunto com as práticas de poder dos poderosos locais impõem determinações
no modo de vida de todos os habitantes locais. A indústria da seca está
escrachada neste filme. Também verificamos nesta conjuntura o parco trabalho
disponível no sertão, sendo que o trabalho temporário e sazonal torna-se
imprescindíveis nas relações produtivas.
Não podemos deixar de
falar da “indústria da seca” que os poderosos economicamente e politicamente
impõem nas relações sociais. A região sertaneja é muita rica culturalmente,
turisticamente e também produtivamente, sendo possível realizar outras atividades
econômicas sem ser de monocultura agrícola ou de criação extensiva de gado de
corte.
Entretanto, os poderosos
locais não deixam isso acontecer, pois é mais viável manter o povo na miséria e
dependente das por venturas climáticas e dos coronéis “painhos” locais, em
contrapartida da vida de luxo e riquezas dos patrões. Não foi à toa que Fabiano
foi impedido pelos funcionários da prefeitura de criar uma atividade produtiva
“alternativa”, sob o “perigo” de subverter a (i)lógica produtiva e social.
Quando há uma época de
chuvas na região há uma grande procura de empregos e quando há estiagem
principiam-se as demissões, fato ocorrido com a família de Fabiano que foi
demitida do emprego sob a desculpa de “um bezerro sumido” e das “dívidas
inacabáveis”, tendo de se jogar “estrada à fora”.
É triste e porque não
dizer cômico a visualização da condição humana nos festejos culturais e
religiosos da população pobre, que reverenciam os coronéis e o prefeito da
cidade o tempo todo, ou seja, já não bastavam explorá-los cotidianamente e
ainda eram “homenageados afetivamente”, conforme podemos presenciar ao longo do
filme. Além disso, estes festejos possibilitavam que a família de Fabiano
tomasse uma “consciência temporária” de sua situação, pois havia pessoas mais
pobres e desfalecidas do que eles.
Parafraseando Euclides
da Cunha no brilhante livro “Os Sertões”, podemos dizer que “o sertanejo é
forte” apesar das vicissitudes sofridas. Mas, tudo tem seu limite! Apesar desta
constatação, o poder coercitivo dos poderosos faz com que os pobres sertanejos
aceitem os absurdos, escolhendo desta vez uma “dialética da sobrevivência” e
não o orgulho pessoal ou a realização das individualidades que são cada vez
mais impossibilitadas.
Por este motivo que
Fabiano tem de aceitar o pagamento de seu salário em menor quantia “por causa
dos juros” e ser demitido pelo patrão. Parafraseando o que disse Sinhá Vitória
ao menino mais velho, podemos dizer que o “inferno é aqui e agora”, pois este
seria “o lugar aonde vai os condenados”, “sendo muito quente”, o qual se
assemelha ao sertão.
O inferno do retirante
está presente a todo momento, o que nos permite ponderar, a respeito de
questões ainda presentes na sociedade contemporânea, tais como a falta de
oportunidade, quer na saúde ou na educação e assim transformando a vida e o
futuro dos Severinos numa verdadeira utopia, devido ao fato deles nunca
concretizarem-se no sistema capitalista, conforme nos atenta Sinhá Vitoria, no
final do filme de forma trandisciplinar como evidenciamos na seguinte composição:
“SECO
PAREÇO
UM ENXUTO LEITO DE RIO
SEM
CHUVA
NEM
VEGETAÇÃO
SECO
IGUAL A
CARNE SECA
FRUTA
SECA
UM SOM
SECO
SECO
SEM
BABADOS
DIRETO
DISPOJADO
INFORMAÇÃO
SECA
COMO UM
CANTO
SEM
ACOMPANHAMENTO
COM A GOELA SECA
SECO
BATENDO
NA TERRA
BUSCANDO
ALGO
QUE NÃO
SEJA SECO”
(FREJAT & SALOMÃO,
1990).
A música expressada acima nos faz ponderar a respeito de
questões que ainda estão presentes no cotidiano atual, que por sua vez é
promovido, ora pela industria da seca no nordeste brasileiro onde a vida segue
seu ritmo em meio a pobreza sociocultural ou socioeconomica, as quais são
retratadas tanto no filme Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos quanto pela
letra: Seco composta por Roberto Frejat e Jorge Salomão em que a vida prossegue
de maneira banalizada, ou seja, “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A
PERSPECTIVA TRANSDISCIPLINAR DO FILME VIDAS SECAS
O dialogo
transdisciplinar do filme fica perceptível na veracidade e na transposição de
uma obra literária para o contexto cinematográfico, nos possibilitando analisar
questões latentes, como o movimento da imagem, da fotografia e dos personagens
formando identidades, ora pelo posicionamento dos atores, os quais favorecem
uma leitura uma “realidade momentânea”, ou seja, das vicissitudes sociais e
econômicas regionalizadas.
O
diretor Nelson Pereira dos Santos faz uma magistral leitura da obra Vidas Secas, utilizando-se do olhar
cinematográfico. Tanto, no livro como no filme demonstram uma “realidade”,
alicerçada numa perspectiva subjetiva retratando fatos que ainda se perpetuam
na sociedade brasileira, como a problemática do latifúndio, da miséria, do
fluxo migratório e da idéia de “Eldorado” construída no imaginário da população
nordestina como se os grandes centros urbanos fossem verdadeiros paraísos.
A
gênese cinematográfica brasileira é formada, quer pelo olhar do diretor com a
câmara objetiva, quer pelo olhar do personagem, ou seja, numa perspectiva
subjetivista, o qual absorve características do neo-realismo.
O
cinema neo-realista e o Cinema Novo Brasileiro têm como marca registrada a
lentidão entre uma imagem e outra, fato que é negada pela indústria
cinematográfica “hollywoodiana”, que se pauta nos diálogos rápidos e
superficiais. Podemos visualizar este aspecto quando Fabiano se depara com o Soldado Amarelo no matagal e o fica
encarando por minutos. Além do mais, a exposição das disparidades
sócio-culturais identificadas pelo cinema-novo brasileiro, pode ser vista como
uma antítese ao cinema Block Buster, ou seja, a produção de cunho comercial, o
qual pode ser observado nas grandes produções hollywoodianas:
“No Brasil,
esses filmes e idéias encontram terrenos particularmente receptivos,
fortalecendo as posições de um grupo integrado, entre, outros, por Nelson
Pereira dos Santos, Alex Viany, Roberto dos Santos, Walter G. Durst, que
procuravam encaminhar-se para produções abaixo do custo numa situação
particularmente adversa à produção cinematográfica, que se opunham ao cinema de
estúdio e ao que se julgava ser hollywoodiano no Brasil, a Vera Cruz (1949-54),
que procuravam uma estética e temáticas expressivas da situação de
subdesenvolvimento do país, um cinema voltado para a questão social e os
oprimidos e capaz de fazer uma crítica desse sistema social. O Neo-Realismo e o
aproveitamento ideológico que foi feito dele estão presentes em filmes Rio,
Quarenta graus (1955), de Nelson Pereira, e O Grande Momento (1958) de R.
Santos.”
(BERNARDET, 1981: 95).
O
trecho mencionado nos permite elucubar não apenas do ponto de vista estético
praticado pelo cinema hollywoodiano, o qual seguia caminhos opostos aos de
filmes produzidos nos “países em desenvolvimento”. Em Vidas Secas a temática é voltada para as problemáticas sociais
existentes na sociedade capitalista explicitadas nos personagens Fabiano, Sinhá
Vitoria, Menino mais Velho, Menino mais Novo, Soldado Amarelo, Tomás da
Bolandeira, do arrendatário das terras (patrão de Fabiano) e da cadela Baleia.
A
estética presente nestes filmes “neo-realistas” ou de “cinema novo” pode ser
considerada revolucionária, por buscar denunciar as relações contraditórias e
de classes sociais do ambiente retratado. Este movimento cinematográfico e
social não era presente somente no Brasil, podendo ser visualizado no precursor
cinema neo-realista italiano que teve início nos idos da década de 1945 com
filmes de Federico Fellini e
se expandiu para outros diretores de variados países.
O
intitulado “cinema novo” realizado no Brasil dos anos 60 teve forte influencia
do neo-realismo, que tinha como ferramenta expor as situações cotidianas
vivenciadas pela sociedade desigual, utilizando-se do mínimo de recursos e
“profissionalismo”.
Estes
estavam situados numa época onde era muito forte o ideal socialista. A grande
preocupação era a construção de uma cultura nacional popular que visasse à
transformação do povo segmentado. Entendiam "povo" como a camada
subalterna da sociedade, a classe trabalhadora, a classe revolucionária,
responsável pela transformação da sociedade, pela insurreição do novo. Era
fruto de um projeto político revolucionário, onde a “cultura popular
revolucionária” assim o era por ser uma cultura dirigida ao povo e também por
ter como objetivo a transformação da sociedade.
Os
assuntos abordados nos levaram a seguinte indagação: O que pode ser tido como
real na arte cinematográfica? Existe uma realidade?
Para
responder a essa indagação é necessário compreender a complexidade contida no
viés subjetivo-geográfico em Vidas Secas e nas produções artísticas produzidas
no Brasil a partir da Segunda metade da década de 40 como o advento da
renovação do cinema na Itália com a corrente do neo-realismo, conforme a
seguinte passagem:
“O início
desse movimento de renovação que se dá ao nível da temática, da linguagem, das
preocupações sociais e das relações com o público, pode ser datado de 1945,
quando começa o neo–realismo italiano. A Itália que, cinematograficamente, fora
conhecida pelos melodramas, suas divas dos anos 20 e 30, suas superproduções
bíblicas, estava saindo do fascismo mussoliano, da monarquia e da guerra,
destroçada. Sobre as ruínas, enquanto paulatinamente se reergue um cinema
comercial, desenvolve-se um cinema que cineastas e críticos vinham preparando
clandestinamente nos últimos anos do fascismo. Realizam filmes voltados para a
situação Italiana, rural e urbana, do pós-guerra. Despojam-se enredos,
personagens, cenografia, de todo o aparato imposto pelo cinema de ficção
tradicional proletários de classe média A rua dos ambientes naturais substituem
os estúdios. Atores pouco conhecidos ou até não profissionais aparecem no lugar
de vedetes célebres. A linguagem simplifica-se, procurando captar este
cotidiano e tentando ficar sempre apegada aos personagens e as suas reações
difíceis situações cotidianas. Essas posturas estéticas levam a produções
executadas como mínimo de recursos, única solução viável na penúria em que se
encontrava a Itália.”
(BERNARDET, 1981: 92).
O presente trecho evidencia a linguagem empregada pela corrente do
neo-realismo italiano fazendo um dialogo transdisciplinar com assuntos da
sociedade, tais como o fascismo e o desemprego. Destacam-se alguns clássicos do
cinema italiano, como no Ladrão de
Bicicleta que retrata a situação da Itália logo após a Segunda Guerra
Mundial e também em filmes
brasileiros como Morte e Vida Severina,
Deus e o Diabo na Terra do Sol e em especial Vidas Secas.
Algumas dessas práticas
apresentadas no filme infelizmente ainda são visíveis na sociedade
contemporânea, tais como a questão do latifundiário, a escravidão por divida
exercidas pelos grandes latifundiários e pelas mineradoras clandestinas, a
grilagem das terras e por último medidas de efeito paliativo.
Ainda hoje nos
deparamos, com tais práticas que servem de fonte de inspiração, tanto no teatro
como no cinema contemporâneo, como maneira de manifestar as contradições
existentes: “Tudo o que é sólido se dissolve no ar, tudo o que é sagrado
é profanado, e os homens são forçados a enfrentar com sentidos mais dispersos
as verdadeiras condições da suas relações com os outros homens”, ou
seja, esses fatos nos são apresentados como uma dentre as inúmeras
interpretações de uma determinada realidade, seja na perspectiva científica ou
artística.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os fatos discorridos
nos fazem refletir sobre a possibilidade de um estudo geográfico sob a ótica da
linguagem cinematográfica constituindo uma paisagem mesmo que seja no plano
subliminar ao reforçar um discurso político-ideológico, ora na realidade
constatada pelo cinema presente no enredo, na dramatização dos personagens, na
localização dos personagens e na sonoplastia.
Apesar de parecer
comodista com o governo, entendemos que quando Fabiano teve a humildade em não
matar o soldado amarelo no matagal, além dele estar mergulhado nesta lógica de
respeito à autoridade do Governo, recupera instantaneamente a humanidade que
lhe é negado cotidianamente pelas vicissitudes do ambiente. Longe de propormos
que devemos negar por completo a autoridade do governo, ou mesmo incitar que se
matem todos os representantes do governo, cremos ressaltar a visualização da
triste condição humana para que consigamos superá-la cotidianamente e
coletivamente.
É injustificável que
ainda temos seres vivos como no (caso da cadela Baleia) e dos retirantes
colocados no limite da sua sobrevivência, os quais são elevados a uma condição
subumana ao morrerem de fome e das demais chagas sociais propiciadas, quer
desigualdade social, quer pela concentração de renda proveniente de práticas
desleais e desumanas promovidas e alimentadas pelo sistema capitalista. A “eutanásia” da cadela Baleia é um dos
pontos mais críticos do filme, pois não resiste e tomba por tudo que tem de
passar conjuntamente com “sua família”.
Lutamos e acreditamos
que aquela visão rápida e romantizada do mundo em que a cadela Baleia tem nos
últimos segundos de vida podem e serão atingidos através de muita luta e
utopias.
Queremos passar longe
dessa idéia de participação no que é possível, ou seja, reivindicar apenas o
possível (outromundismo ou altermundialismo), pois incapacita acreditar que é
permitido mover corações, mentes para a transformação radical das bases
econômicas, políticas e sociais do nosso mundo, não acreditando na humanidade.
"Sonhar é preciso!", já disse o personagens dos quadrinhos "Sandman". Parodiando Vladimir Lênin em Que Fazer? :
"Sonhar é preciso!", já disse o personagens dos quadrinhos "Sandman". Parodiando Vladimir Lênin em Que Fazer? :
“É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar
com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de
realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles”.
O sonho é nesse caso o
patrono da ciência e o que move a realidade. Sonhamos e transformamos os sonhos
em realidade pela luta. Não queremos ser emociotivos muito menos piegas.
Queremos demonstrar que temos de ir além da indignação com a visualização das
contradições sociais e que devemos nos organizar coletivamente e mudar esta
realidade. Não podemos afirmar se utilizaremos a ciência do socialismo para que
as pessoas se organizem para lutar, mas temos de ir além do que nos é imposto.
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