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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Artigo - UMA ANÁLISE DO CONCEITO DE NATUREZA DAS SOCIEDADES E UMA CRÍTICA AO REFORMISMO DOS MOVIMENTOS AMBIENTALISTAS


UMA ANÁLISE DO CONCEITO DE NATUREZA DAS SOCIEDADES E UMA CRÍTICA AO REFORMISMO DOS MOVIMENTOS AMBIENTALISTAS

Wladimir Jansen Ferreira[1]

O Universo não é uma idéia minha.
A minha idéia de Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
(Fernando Pessoa em “Guardador de Rebanhos”)

Resumo

Tecerei reflexões sobre a relação homem-natureza e temas conceituais, tais como a relação homem-natureza; o significado dos conceitos de natureza, homem, ecologia e meio ambiente; as relações do modo de produção com o conceito de natureza e homem; como foi formado o conceito de natureza e homem da sociedade capitalista; as contradições dos discursos do movimento ambientalista, etc.

Palavras-Chaves: geografia, homem, natureza, epistemologia e capitalismo.

Abstract

Allow me to make reflections on the relationship between man and nature and conceptual themes, such as the relationship between man and nature, the meaning of the concepts of nature, man, ecology and environment, the relations of the mode of production with the concept of nature and man, was formed as the concept of nature and man of capitalist society, the contradictions of the discourse of the movement environmental, etc.

Key Words: geography, man, nature, epistemology and capitalism.




Sobre o Conceito de Meio Ambiente, Ecologia e Natureza


De acordo com MOREIRA (2006) o Planeta Terra é um conjunto de partes autônomas e integradas, reunidas pela lei da gravidade, lei da unidade do planeta, extensiva à unidade do universo.
O geógrafo Friedrich Ratzel (1844-1904) em seu livro Antropogeografia dá uma importante contribuição a respeito, mostrando que os elementos do Planeta Terra estão conectados:
Nossa Terra constitui em si um único complexo graças à força da gravidade a que obedecem todos os corpos e todos os seres; e esse complexo é também conectado ao espaço externo, mantido no sistema solar pela mesma força e alimentado por aquela fonte inesgotável de força viva representada pelo Sol. Mas, todas as coisas sobre a Terra encontram-se ligadas e unidas por uma ordem de tão profunda necessidade, que só a abundância de seus desenvolvimentos singulares é que permite às vezes vislumbrar a afinidade que as cimenta[2].

Podemos dividir o planeta em 4 esferas: Litosfera, Hidrosfera, Atmosfera e Biosfera. Podemos dizer que na articulação destes 4 elementos está fundamentado o que compreendemos como natureza.
Segundo CARVALHO (2003, p.11), pode-se distinguir os agrupamentos na natureza em animados e inanimados, sendo que os animados "(...) possuem como característica básica a capacidade dos conhecimentos, sua vez que, mais que presentes no mundo, nele exercem sua ação".
A Fauna e a Flora fazem parte da Biosfera, portanto, o Homem é elemento integrante da Biosfera, pois é um “animal racional”. Tudo o que o homem produz materialmente também pode ser compreendido como natureza. ENGELS (1978, p.26) disse que “o homem é a natureza que toma consciência de si mesma”[3].
O homem é parte integrante da natureza, mas é diferente. CARVALHO (2003, p.12), aprofunda esta questão:
Entre os seres vivos, o ser humano se diferencia radicalmente, pois, além da capacidade de reagir ao mundo, possui a capacidade de reflexão metódica. Suas ações apresentam um caráter de deliberação e de intencionalidade que, a despeito do maior ou menor grau de consciência que possa refletir, não encontra paralelo com nenhum outro ser do mundo animal ou vegetal. Por isso, é entre os seres humanos, ou para as sociedades humanas, que tem sentido dizer que os homens fizeram ou fazem sua própria história.
A natureza tem também a sua própria história, mas é uma história que nós contamos!

RATZEL (1914) na passagem a seguir, reflete sobre a relação homem-natureza e as determinações naturais na vida material do ser humano: "a maior parte das influências que a natureza exerce sobre a vida espiritual do homem manifesta-se por meio das condições econômicas e sociais, as quais são, por sua vez, com elas profundamente coligadas." CARVALHO (1999) aprofunda ainda mais a visão de Ratzel:
Segundo Ratzel, portanto, o homem estabelece com a natureza uma relação intermediada pelo esforço de seu trabalho e de suas ordenações sociais. Por via desse esforço, conquista-se uma aparente autonomia, mas que outra coisa não é senão a própria revelação de atributos naturais da dinâmica humana. Assim, o homem, para Ratzel, não deve ser visto apenas como parte da natureza, mas como integrante e resultado de sua dinâmica evolutiva, ou, em suas próprias palavras: "foi a partir dela que ele se constituiu, e não sem que a natureza gravasse em seu ser e da forma mais múltipla o próprio sinal"[4].

O conceito de Meio Ambiente envolve todas as coisas vivas (orgânicas) e não-vivas (inorgânicas) do Planeta Terra, ou seja, as “Quatro Esferas” (e a natureza) do Planeta Terra estão incluídas nesta idéia. Este conceito é popularizado[5] em 1972 na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, celebrada em Estocolmo: "O meio ambiente é o conjunto de componentes físicos, químicos, biológicos e sociais capazes de causar efeitos diretos ou indiretos, em um prazo curto ou longo, sobre os seres vivos e as atividades humanas."[6]
Segundo MOREIRA (2004-a, p.30) a idéia de “meio ambiente” também foi uma reivindicação dos Estados nacionais viventes sob o modo de produção da sociedade capitalista: “Arrastados pelos respectivos Estados Nacionais, os cientistas reorientam sua ótica de natureza passando a vê-la como meio ambiente, assim surgindo os estudos que vinculam natureza e território”.
RODRIGUES (2005) critica a idéia de “meio ambiente”, pois separaria o “meio externo” do “homem”, retirando a sociedade de suas análises. A noção “ambiente” tem que ser resgatada sem o “meio” antes de “ambiente”. O “meio ambiente” vira “bem comum” e esconde as relações sociais. SANTOS (2005, 148) também faz uma crítica à esta idéia:
Quando falamos em meio-ambiente em lugar de meio, certos enfoques atuais podem aparecer como reducionistas, na medida em que eles apenas se interessam por um dos aspectos de uma complexa problemática. Por exemplo, uma visão puramente ideológica da questão, uma visão puramente econômica ou uma preocupação exclusivamente tópica.

O conceito de Meio Ambiente foi inspirado no conceito de Ecologia, que surgiu pelo zoólogo Ernest Haeckel (1834-1919). Este conceito tenta integrar e superar a dicotomia Homem-Natureza. Segundo MOREIRA (2006), Haeckel com sua concepção ecológica, propunha realizar uma explicação Holista[7] de universo, referencia o processo de síntese da vida por meio da integração entre o orgânico e o inorgânico.
TRICART (1977, p.17) alerta que os debates ecológicos ressurgem com TANSLEY em 1934, que teria sistematizado o conceito de ecossistema (que teria surgido no século XVIII com o raciocínio da “termodinâmica”), como “um conjunto de seres vivos mutuamente dependentes uns dos outros e do meio ambiente no qual vivem”.
Importante ressaltar que o conceito de Ecologia de Haeckel é diferente do conceito de Ecologia de Ratzel. Segundo CARVALHO (1999) a ecologia de Ratzel “se distingue, no entanto, e desde o início, da perspectiva biologista, ao direcionar os esforços de suas preocupações no sentido da compreensão das dinâmicas humanas”, onde as dinâmicas humanas “apresentam as particularidades de desfrutar um certo grau de liberdade e também de ascendência sobre as demais”[8]. Portanto, a ecologia ratzeliana “se recusa a desvincular a dinâmica que preside as particularidades da geografia dos homens dos outros universos de conexões que envolvem todas as formas de vida presentes no planeta”.
MORAES (1990, p.45) atribui à Ecologia três significados: de ciência (preconizado por Haeckel), de método (derivada do holismo, com Ratzel como seu defensor) e como uma “questão social, objeto de interesse e de intervenção política” (um “campo de atuação com formas de organização política, táticas, estratégias e metas estabelecidas”).
Tanto os conceitos de Meio Ambiente quanto o de Ecologia surgem para tentar “superar” a dicotomia Homem-Natureza. Entretanto, esta mesma Dicotomia que cria a idéia de homem e natureza. Sociedade cria o Homem como negação da natureza, ou seja, natureza é a negação da sociedade. A natureza jamais poderia ser compreendida se não fosse concebida como alteridade em relação ao homem. O conceito de natureza é desumanizado. Concordo com MARTINS (2009, p.23), quando diz que “natureza é construção social e, portanto, toda ela é socialmente apreendida, suposta e designada e produzida, já que o pensamento é derivado de um gesto produtivo”. Para reafirmar esta idéia, MARTINS (2009, p.23) citará MARX (1989)[9] que teria dito no Terceiro Manuscrito:
A natureza enquanto natureza, quer dizer, na medida que ainda se distingue do seu sentido secreto, nela oculto, a natureza separada e distintas destas abstrações, é nada, um nada que se comprova como nada, encontra-se desprovida de sentido ou tem apenas o sentido de uma exterioridade, que foi ab-rogado.

Apesar da constatação de que a natureza ser percebida socialmente, concordo com Georg Lukács[10] (apud MORAES, 1990, p.47) quando este “aponta a repetibilidade e regularidade nos fenômenos da natureza inorgânica sem paralelos com o domínio dos fatos sociais”, ou seja, isso só destaca a importância das “ciências da natureza”, que realizam uma leitura mais focada sobre o assunto.
Portanto, podemos afirmar que: “sem natureza não há sociedade e sem sociedade não há natureza”.
Sem sociedade não há natureza porque foi o ser humano que deu nome aos objetos do mundo (seja um cachorro, árvore, montanha, rio). A natureza é um elemento concreto do mundo, sendo também o palco dos acontecimentos. Natureza também é um conceito, sendo uma construção humana e social. Portanto, natureza é um conceito social, sem sociedade não pode haver a idéia de natureza, até porque alguém disse que a natureza existe e certamente não foi o Planeta Terra ou um ser superior (deus).
Sem natureza não há sociedade porque toda sociedade necessita da natureza para sobreviver, pois o homem bebe água, alimenta, respira, utiliza roupas, etc.
É equivocada a visão que diz que o homem não pode interferir na natureza. Ele sempre vai interferir, só que com menor ou maior intensidade, de acordo com o modo de produção das sociedades.
TRICART (1977, p.15) reflete que a utilização de natureza pelas sociedades é tão antiga quanto a “existência do gênero humano sobre a Terra”, mas o ser humano tem se apropriado mais de natureza na sociedade capitalista (pós Revolução Industrial). A passagem abaixo também faz uma critica indireta aos ecologistas que só querem falar de “qualidade de vida, poluição e defesa do meio ambiente”, se esquecendo de discutir a sociedade:
Os recursos  ecologicos são os elementos do meio ambiente necessários à vida animal do Homem, ou seja, ao metabolismo de seu organismo: alimentos, fornecidos pelss plantas e pelos animais, água, ar. Podem chamar-se recursos básicos, por serem estritamente indispensáveis. Um homem pode viver sem aço ou sem petroleo, mas não sem água, se ar, sem alimento. Isto é evidente. Mas, infelizmente, é frequente a instalação de fábricas que destroem o meio ambiente e tornam a vida humana quase impossível, para antender a uma finalidade apenas economica. Como resultado, a opinião pública se tornou inquieta, reagindo e levantando problemas de “qualidade de vida”, de poluição e defesa do meio ambiente.


Natureza Como Conceito Social, Refletindo o Modo de Produção
"A maior parte das influências que a natureza exerce sobre a vida espiritual do homem manifesta-se por meio das condições econômicas e sociais, as quais são, por sua vez, com elas profundamente coligadas." (RATZEL, 1914, Antropogeografia, p.51)


A nossa sociedade reconhece a natureza como sendo algo “além do homem”, como plantas, outros animais, rochas, relevos, atmosfera, ambientes, etc. Segundo CARVALHO (2003, p.9):
(...) o senso comum nos diz que natural é aquilo que não é artificial. ou, em várias outras palavras, natural é o que a natureza fez, e só ela. e artificial é o que o homem fez, mesmo que com ajuda ou com os recursos da própria natureza.

Para CARVALHO (2003, p.13), existem várias definições para o que seja natureza em nossa sociedade moderna:

 Por exemplo, se para um empresário de mineração, natureza é fonte de matérias-primas de onde extrai a mercadoria com a qual se obterá lucros, já para o camponês, natureza é meio de sobrevivência, ou, de outro lado, se para um especulador de terras natureza é investimento imobiliário, já para os índios é um espaço de vida que não se vende nem se compra.

Segundo BLUWOL (2009, p.43) “Natureza é um conceito socialmente, historicamente e geograficamente constituído”. Toda sociedade cria o seu conceito de natureza, sendo uma construção humana e social, como vemos na passagem de GONÇALVES (2000, p.23) a seguir:
Toda sociedade, toda cultura cria, inventa, institui uma determinada idéia do que seja natureza. Nesse sentido, o conceito de natureza não é natural, sendo na verdade criado e instituído pelos homens. Constitui um dos pilares através do qual os homens erguem as suas relações sociais, sua produção material e espiritual, enfim, a sua cultura.

A cultura determina a forma com que as pessoas se relacionam com a natureza. Estudar o conceito de natureza é estudar a sociedade e o conceito de natureza é determinante nas relações sociais.
Toda a sociedade tem um modo de produção, a forma com que a sociedade se organiza produtivamente. Toda sociedade cria a sua cultura, os seus conceito e idéias em relação ao mundo. Isto significa que a cultura é um reflexo do modo de produção das sociedades, o espaço-temporalidade em que se constituiu esta sociedade.
O modo de produção de determinada sociedade (com sua cultura) determinará a forma com que as pessoas se relacionam com a natureza.
Natureza, portanto, é um conceito social. Estudar o conceito de natureza é estudar a sociedade em que ela está inserida e este conceito é determinante nas relações sociais. O meio natural é um objeto histórico do campo das construções humanas. Segundo CARVALHO (2003, p.13):
(...) a definição ou a conceituação do que seja natureza depende da percepção que temos dela, de nós próprios, e, portanto, da finalidade que daremos para ela, isto é, depende das formas e objetivos de nossa convivência social. (...) foram múltiplos nas várias sociedades que ao longo da história os homens constituíram.
Em cada uma dessas sociedades, ou em cada um desses tempos, a natureza possuía um significado diferente segundo os valores e objetivos de cada agrupamento social.

Cada sociedade produz a natureza que necessita, ou seja, o significado de natureza e homem depende do agrupamento humano, do tipo de sociedade, ou da classe social de quem responde[11]. CARVALHO (2003, p.22) chega a uma importante conclusão à respeito:
(...) a história da natureza é também a história dos próprios homens, já que estes não se relacionam com a natureza ou a conhecem de uma maneira abstrata e genérica, mas segundo as necessidades impostas pelo relacionamento que mantêm entre si.

RATZEL (1914) faz uma importante reflexão sobre a relação sociedade e natureza:
Alguns etnógrafos têm sustentado que o progresso da civilização não consiste em outra coisa que não seja uma maior libertação, das pessoas, das condições naturais do território; contrariamente a isso, nós podemos afirmar que a diferença entre povos primitivos e civilizados não reside no grau, mas sim no tipo de vínculo existente entre o homem e a natureza. A civilização é independente da natureza não no sentido de um completo afastamento, mas sim no sentido do estabelecimento de vínculos mais diversos, mais vastos e menos imperiosos.[12]

O conceito de natureza é um reflexo das sociedades, variando de acordo com o modo de produção das sociedades. Numa sociedade de base rural (como a indígena ou a Grécia Clássica) o conceito de natureza será diferente do da sociedade capitalista.
No Modo de Produção Primitivo (Indígena) temos uma integração homem e natureza, com uma visão não-predatória do homem em relação à natureza, ou seja, não há uma distinção do mundo natural com o mundo social. CARVALHO (2003, p.13) disse que nas sociedades primitivas "a natureza nem sequer era reconhecida enquanto algo distinto do agrupamento humano, uma vez que se confundia com o próprio espaço de vida desse agrupamento (...)”.
SANTOS (2005, p.144-145, p.142 e p.147) diferenciará o modo de vida com as necessidades produtivas nas sociedades viventes no “meio natural ou pré-técnico (sociedades “tradicionais ou primitivas”, na primeira citação)” e no “meio técnico-científico-informacional” (sociedade capitalista, nas segunda e terceira citações):
(...) Essa harmonia sócio-espacial assim estabelecida era, desse modo, respeitosa frente à natureza herdada, no processo de criação de uma nova natureza. Produzindo-a, a sociedade territorial produzia, também, uma série de normas territoriais, cuja preocupação era preservar o meio de vida, para salvaguardar a continuidade do processo. Exemplos disso são, entre outros, o pousio, a rotação de terras, a agricultura itinerante, que são ao mesmo tempo regras sociais e regras territoriais, tendentes a conciliar o uso e a "conservação" da natureza: para ser, outra vez, utilizada. Esses sistemas técnicos sem objetos técnicos, não eram, pois, agressivos, pelo fato de serem indissociáveis em relação à Natureza que, em sua operação, ajudavam a se reconstituir.

(...)

Na fase atual, momento em que a economia se tornou mundializada, adotando um único modelo técnico, a natureza se viu unificada. Suas diversas frações são postas ao alcance dos mais diversos capitais, que as individualizam, hierarquizando-as segundo lógicas com escalas diversas. A uma escala mundial corresponde uma lógica mundial que, nesse nível, guia os investimentos, a circulação de riquezas, a distribuição de mercadorias. Porém, cada lugar é o ponto de encontro de lógicas que trabalham em diferentes escalas, reveladoras de níveis diversos, às vezes contrastantes na busca de eficácia e de lucro no uso das tecnologias, do capital e do trabalho. Trata-se de uma natureza unificada pela história a serviço dos atores hegemônicos, onde a técnica passou a ser mediação fundamental do homem com seu entorno.
Ao falarmos em meio ambiente, portanto, temos que entender, antes de mais nada, a formação desse meio técnico que hoje é passível de ser apreendido na relação do lugar com o mundo, posto que a técnica é a base de realização da mundialidade como totalidade empírica[13] e esta só é alcançada através dos lugares, na medida em que os lugares exprimem a funcionalização do mundo.
(...)
A busca de mais-valia ao nível global faz com que a sede primeira do impulso produtivo (que é também destrutivo, para usar uma expressão de J. Brunhes), seja apátrida, extraterritorial, indiferente às realidades locais ou, vamos dizer assim, às realidades ambientais.
Talvez por isso a chamada crise ambiental se produz neste período histórico, onde o poder das forças desencadeadas ultrapassa a capacidade de controlá-las, nas condições atuais de mundialidade e de suas repercussões nacionais e locais.

Já no Modo de Produção Capitalista temos uma oposição entre homem e natureza (com superioridade do homem), com uma visão predatória do homem em relação à natureza (aonde a natureza é custo de produção).
Portanto, para sintetizar esta discussão, concordo com MOREIRA (2004, p. 31):
(...) cada época histórica cria sua própria concepção de natureza, uma vez que toda época é orientada pela concepção de natureza que melhor se vincula às necessidades culturais do melhor relacionamento dos homens com o seu mundo. A concepção de natureza atual é a que nasce relacionada ao projeto histórico da construção da base material, técnica, do capitalismo. Evoluindo, sem mudar sua substância.


História do Homem e da Sua Relação Com a Natureza


Natureza é um conceito socialmente construído, variando de acordo com os modos de produções das sociedades, sendo este conceito o reflexo da forma com que as sociedades se relacionam com o mundo. Além de ser necessário se fazer esta discussão, é importante se pensar como que “o homem foi se humanizando e foi se diferenciando na natureza”.
Como já vimos, o homem é parte integrante da natureza, mas o homem é a natureza que toma consciência de si mesma. Além do que, a natureza é a negação da sociedade, pois para criar sua identidade humana, o Homem negou a natureza como elemento integrante de si. MORAES (1990, p.46) reflete que a separação entre homem e natureza é histórica e social e “ao modificar sua natureza exterior que o homem substantiva suas potencialidades naturais, adestrando a mente e os músculos na transformação do ambiente”.
Como foi dito, o surgimento do Homem foi um momento da natureza tomando consciência de si. O homem tem de ser considerado na sua totalidade, como parte integrante da natureza, mas dela diferenciada. ENGELS (1978, p.182) diz que:
Numa palavra, o animal apenas utiliza a natureza exterior e provoca nela modificações apenas pela sua presença; por seu lado, o homem transforma-a para que ela siga aos seus fins; domina-a e é nisto que consiste a ultima diferença entre o homem e os animais; tal diferença, deve-a o homem mais uma vez ao trabalho.

GONÇALVES (2000, p.25) disse que em nossa sociedade, ”natureza” se opõe à “cultura”, onde a “cultura é tomada como algo superior e que conseguiu controlar e dominar a natureza”. O ser humano surge como negação da natureza, ou seja, natureza é um conceito desumanizado. Concordo com SANTOS (2005, p.141-142) que diz que:
A história do homem sobre a Terra é a história de uma ruptura progressiva entre o homem e o entorno. Esse processo se acelera quando, praticamente ao mesmo tempo, o homem se descobre como indivíduo e inicia a mecanização do planeta, armando-se de novos instrumentos para tentar dominá-lo. A natureza artificializada marca uma grande mudança na história humana da natureza. Agora, com uma tecnociência, alcançamos o estágio supremo dessa evolução[14].

HARVEY (2004, p. 263) cita Marx e Engels em O Capital (Ed. 1967, p. 177-178) para diferenciar o homem da natureza, dando valor à consciência nos seus atos e no trabalho:
Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a Natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação inicia, regula e controla seu intercâmbio material com a Natureza [...] Assim agindo sobre a natureza externa e modificando-a, ele ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e as submetidas ao seu domínio [...] Pressupomos o trabalho sob a forma que o assinala como exclusivamente humano. Uma aranha executa operações que semelham as do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que o arquiteto concebe na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. Ao final do processo do trabalho obtém-se um resultado que já existia na imaginação do trabalhador desde o começo. Ele não apenas transforma o material sobre o qual opera como imprime ao material o projeto [...]

O homem ao diferenciar da natureza pelo trabalho começará a interferir nesta e segundo ALTVATER (2006, p.333), o homem pelo trabalho transformará a natureza em uma nova natureza, uma natureza “humanizada”:
(...) ao aplicar as leis da natureza ao processo de trabalho, o homem transforma a natureza em uma natureza feita pelo homem, “humanizada”, que ao principio de cada processo produtivo é utilizado e, terminado o consumo do produto, recebe os restos produzidos.

MOREIRA (2004-a, p.99) diz que o homem se diferencia da natureza pela sua capacidade se construir cultura, de ser sujeito-objeto de sua história e de “conjurar ser com existir”:
(...) a evolução biológica da humanidade difere da evolução biológica dos demais animais precisamente porque os homens são os sujeitos e objetos de sua história. É este o grande salto qualitativo que se verifica na evolução natural das espécies: o de que um animal chamado homem adquire, por decorrência dessa própria evolução, o poder de construir-se construindo sua cultura, o poder de conjugar ser com existir.

É importante que se faça uma reflexão sobre o “ser de nossa espécie”. Cada espécie vive em seu próprio mundo sensorial. HARVEY (2004, p.272) diz que o ser humano é um ser sensorial “em relação metabólica com o mundo que nos cerca. Alteramos esse mundo e, ao fazê-lo, alteramos a nós mesmos mediante nossas atividades e labores”. Conclui esta reflexão dizendo:
(...) Somos uma espécie como todas as que há na terra, dotada, como elas, de capacidades e potencialidades específicas que são empregadas com vistas a modificar ambientes de maneiras que levem à nossas próprias sobrevivência e reprodução. Nisso não diferimos de todas as outras espécies (como as térmitas, as abelhas e os castores) que modificam seu ambiente ao mesmo tempo em que aprofundam sua adaptação aos ambientes que elas mesmas ajudam a construir.

Podemos dizer que o “o homem foi se diferenciando na natureza” desde o momento em que o “homem se emancipou dos hominídeos”, ou seja, desde o momento em que o Homo Sapiens surgiu no Planeta Terra.
Segundo ISTOÉ (2009, p.37-39), os Homo Sapiens apareceram na Terra há cerca de 200 mil anos durante o período Quaternário[15]. Isso ocorreu por desenvolvimentos biológicos no corpo dos hominídeos, que está relacionado à determinações climáticas e bruscas mudanças na geografia dos lugares. Estas mudanças geográficas fazem com que os hominídeos se adaptem às mudanças, façam saltos evolutivos. A “locomoção bípede e a postura ereta” são uma conseqüência desta mudança, são as adaptações que seriam feitas pelo Homo Sapiens. GONÇALVES (2000, p.84) disse que:
O bipedismo abre o caminho que conduz ao Homo Sapiens: a posição de pé liberta a mão; a mão liberta os maxilares; a verticalização e a liberação dos maxilares libertam a caixa craniana das sujeições mecânicas, abrindo assim novos caminhos ao processo evolutivo.

Há cerca de 120 mil anos, os Homo sapiens começaram um movimento migratório, saindo da região central do continente africano e marchando inicialmente para o norte da áfrica há 100 mil anos, depois ao oeste do Mediterrâneo há 90 mil anos (encontrando-se com neandertais), alcançando a China há 30 mil anos, chegando à Austrália há 50 mil anos, adentrando ao interior da Europa há 40 mil anos. Só chegarão ao Chile há 12,5 mil anos (depois que o Estreito de Bering ficou exposto a baixos níveis do mar, entre 18-10,2 mil anos)[16].
Desde o inicio do surgimento do Homo Sapiens a prática da caça e pesca é percebida. A “exploração animal” ou a “alimentação de carne” foi decisiva “para que o homem fosse homem”, conforme a passagem de ENGELS (1978, p.179) a seguir:
O consumo de carne na alimentação é responsável por dois novos avanços importantes e decisivos: o uso do fogo e a domesticação dos animais. O fogo reduziu ainda mais o processo digestivo, porque permitia levar à boca alimento já em parte digerido. A domesticação dos animais multiplicou as reservas de carne, por ser, ao lado da caça, mais uma nova e regular fonte de alimentação, além de favorecer a obtenção do leite e seus derivados, tão ricos na sua composição quanto a carne.

A caça ajudou bastante na humanização do homem, pois estimularia aptidões estratégicas (a atenção, a tenacidade, a combatividade, a audácia, o engodo, a armadilha, a espreita), organização coletiva e solidariedade entre homens, produção coletiva e organização econômica, etc.
Com a Revolução Agrícola do período Neolítico, temos o surgimento da prática da agricultura, fazendo o homem sair de sua condição de “caçador-coletor” para ser “o cultivador”. A prática da agricultura vai revolucionar os modos de vidas e o modo de produção das sociedades, pois o homem se tornará sedentário e não mais nômade.
Estudos dizem que a primeira atividade agrícola ocorreu entre 9000 e 7000 a.C. em certos lugares privilegiados da Sírio-Palestina, do sul da Anatólia e do norte da Mesopotâmia. Aconteceu também na Índia (há 8 mil anos), na China (7 mil anos), na Europa (6.500 anos), na África Tropical (5 mil anos) e nas Américas (México e Peru, cerca de 4.500 anos). Em 3000 a.C., a Revolução Agrícola já tinha atingido a Península Ibérica e grande parte da Europa.
Com a prática da agricultura tivemos o surgimento de outras relações sociais, tais como a fiação, a tecelagem, o trabalho dos metais, a olaria, a navegação.
Do mesmo jeito que a discussão da Natureza, as sociedades também compreendem “Homem” de acordo com suas necessidades e seu Modo de Produção.
Neste sentido, MOREIRA (2004-a, p.49) diz que a “concepção de homem de nossa cultura corrente é a que se assentou a partir do pacto feito entre ciência e filosofia” nos séculos entre o Renascimento e o Iluminismo. É uma idéia de homem nascida da exclusão da idéia de natureza como coisa física. Está fora da natureza e da sociedade, cuja discussão do humano está apropriada pelo pragmatismo da idéia de população da teoria econômica neoclássica.
O pacto entre filosofia-religião-ciência do Renascimento, apoiado nas idéias de Descartes (que separa corpo-mente), vai gerar uma idéia de mundo físico e de mundo metafísico. Natureza seria função da física e o homem seria função da metafísica, com o corpo derivando entre um campo e outro.
MOREIRA (2004-a, p.89) na passagem a seguir fala como que o capitalismo modifica a relação homem-natureza:
Enquanto a história humana não atingiu a fase do capitalismo, história natural e historia social do homem fundiam-se num plano que era mais o da historia natural. O capitalismo introduz uma reestruturação radical na relação homem-mundo, desterritorializando o homem de suas raízes geográficas históricas, para jogá-lo desenraizado numa relação geográfica construída sobre os alicerces da razão técnica cartesiano-newtoniana. O começo desta forma amplamente desenvolvida de alienação humana é a desterritorialização do campesinato. Este se proletariza e vira homem vendedor-de-força-de-trabalho, desidentificado consigo mesmo e transformado em classe trabalhadora do sistema industrial.

Segundo MOREIRA (2004-a, p.51), com o desenvolvimento da manufatura e posteriormente da indústria, o corpo do homem servirá “para o campo do aperfeiçoamento com o mundo das engrenagens da indústria”. Este mesmo homem desnaturalizado compreenderá o mundo como se fosse uma “grande máquina semelhante às maquinas da indústria e obedece às mesmas leis gerais de toda engrenagem”.
O homem-máquina do início da sociedade capitalista é convertido num homem-força-de-trabalho. Para isso ocorrer o homem tem que transformar o tempo social num tempo técnico (pontualidade do relógio).
Segundo MOREIRA (2004-a, p.52), o tempo das sociedades não-capitalistas é concebido como sendo a ritmicidade que é a própria do movimento das coisas, “marcado pelo movimento do dia e das noites e das sazonalidades das estações do ano”. Já o tempo na sociedade capitalista será artificial e técnico, um “tempo do relógio” que organizar “o ritmo e o tempo disciplinar do trabalho da moderna indústria”. É um tempo organizado para o trabalho e a produtividade, com o homem virando custo de produção.
O tempo do trabalho pautará todos os outros tempos sociais, onde o “tempo é dinheiro”. Produto final resultante da produção determinada pelo tempo do trabalho determinará as relações sociais (em particular a divisão de riquezas entre as classes sociais). Portanto o homem-força-de-trabalho vira homem-fator-de-produção (custo de produção).
O homem na sociedade capitalista está condicionado ao poder econômico, segundo MOREIRA (2004-a, p.53), a quantidade de salário “é a referencia da medida da quantidade de bens e serviços a que pode ter acesso o homem”. O homem-fator-de-produção (custo de produção) precisa virar homem-consumidor. Surge uma preocupação social para se estabelecer o “equilíbrio entre o volume dos recursos da natureza e o crescimento do seu consumo pelos homens”. O Estado precisa intervir no ritmo do consumo, planificando e planejando a sociedade, para haver “equilíbrio entre recursos naturais e consumo humano”. O homem-consumidor se transforma no homem-população[17].
Para MOREIRA (2004-a, p.53-54), planejar é necessário contar o número de homens, “fazer um levantamento constante da classificação e estimativa constante dos recursos da natureza”, balanço do movimento do processo do consumo. O homem-população vira o atual homem-estatístico.
Quantificar o homem é necessário para prever o ritmo de crescimento. Surgem os conceitos de: taxa de natalidade, taxa de mortalidade e taxa de fecundidade. Esta quantificação é uma forma de diluir a luta de classes, com o objetivo de frear revoluções populares nos países, ter um pacto de classes e salvar o capitalismo (solucionando e amenizando-o nas crises cíclicas do capital).
A transformação do “homem-estatístico” é uma apropriação reformista que retira o conteúdo radical e tentam criar uma harmonia de classes. Burguesia vira riqueza, proletariado vira pobreza, acumulação vira desenvolvimento-subdesenvolimento, contradições de classe viram desigualdades de renda e desenvolvimento desigual-combinado vira desequilíbrio regional. A simples distribuição de renda resolveria as desigualdades de classe.
Portanto, para se compreender os conceitos de “Homem e de Natureza” é necessário localizá-lo dentro dos Modos de Produção. É necessário que se crie um novo conceito de homem e natureza, mas para isso ocorrer deve-se mudar e acabar com o Modo de Produção Capitalista.


História do Conceito de Natureza nas Sociedades


Temos de compreender como foi concebido o conceito de natureza na nossa sociedade, saber como ele foi se modificando até chegar ao nosso.
Importante enfatizar que toda concepção filosófica possui concepções cosmológicas e toda sociedade cria mitos de formação do mundo. Todo o conhecimento (ou cultura) advindo das sociedades está vinculado ao modo de produção e às necessidades sociais do momento.
A “matriz filosófica” da separação Homem-Natureza surge na Grécia e Roma Clássicos, a partir de Demócrito (460 a.C.- 370 a.C), Sócrates (469 a.C.- 399 a.C), Platão (séculos V a.C.- IV a.C), Aristóteles (367 a.C - 347a.C) e Ptolomeu (100 d.C - 178 d.C).
Segundo GONÇALVES (2000, p.29-31), na era “pré-socrática” (ou helênica)[18] se compreendia o homem (o psíquico) como pertencente à natureza ou Planeta Terra (a physis). Os deuses gregos eram parte integrante da natureza, onde a manifestação dos deuses se dava na natureza. Os deuses não estavam em um local superior ou separado, estavam em todos os lugares (“tudo estava cheio de deuses”, como disse Tales de Mileto).
A physis é o psíquico, pois além de ser um conceito construído socialmente, o homem é parte integrante desta. GONÇALVES (2000, p.30) faz uma citação do filósofo Gerd Bornheim que parodia Heidegger, dizendo que “a physis é o próprio ser”. Pensando a physis, os filósofos pré-socráticos pensam o próprio ser e a partir da physis poderia se chegar a uma compreensão da totalidade do real.
Este conceito de natureza animista é típico das chamadas “sociedades primitivas”, estando muito presente em alguns povos indígenas, em algumas tribos africanas, nos aborígenes da Austrália, etc. Não tínhamos uma distinção entre o mundo natural e o mundo social e CARVALHO (2001, p.25) refletirá muito bem este universo:
(...) as carências, os desejos, as decepções, as paixões, as iras, a gratidão e demais atitudes humanas serão também “comportamentos” comuns entre os elementos da natureza, podendo ser percebidos na planta que cresce, na erupção de um vulcão, num trovão, na chuva que cai, na enchente de um rio, ou na morte de um animal.

Não havendo produtos sociais nestas “sociedades primitivas” não havia a possibilidade ou sentido social de se ter lucro, mercadorias, excedentes de produção e classes sociais (expresso em desigualdades sociais). A partir do momento que eles começassem a fazer isso, eles perderiam sua identidade, deixariam de ser o que são.
A distinção consciente entre o social e o natural aparecerá a partir do momento em que temos distinções sociais ou sociedades com classes sociais. Isso começa a ocorrer nas distinções de sacerdotes e camponeses, no surgimento do faraó e do escravo, etc. CARVALHO (2001, p.29-30) tem uma passagem brilhante a este respeito:
O desenvolvimento da sociedade de classes e seu desdobramento espacial, com o advento da cidade e do campo, abriu caminho para que, a partir da consolidação das “distâncias” sociais entre os homens, estes pudessem ver, pensar e conceituar natureza e sociedade como coisas distintas, isto é, percebessem “distâncias” também entre si e as coisas naturais.

A transição e o rompimento da cosmologia e da conceitualização de homem e natureza da “sociedade primitiva” para outras sociedades, não ocorreu de maneira abrupta, não ocorrendo em todos os lugares do globo e ao mesmo tempo.
GONÇALVES (2000, p.29-30) citando Gerd Bornheim, diz que em Demócrito percebemos uma mudança neste conceito de natureza e homem, pois temos a idéia de alma, ou seja, forças misteriosas que habitam a physis, o homem tendo uma superioridade em relação à physis.
GONÇALVES (2000, p.31) alerta para a importância de se contextualizar a discussão, pois após a “Guerra do Peloponeso”, tivemos uma crise do regime social e político de Atenas, fazendo com que os novos filósofos gregos desqualificassem os pensadores anteriores.
Esta mudança também foi sinalizada na criação da política, da filosofia e do direito grego, expressos na democracia, na polis, na Ágora, etc.
Segundo GONÇALVES (2000, p.31-32), a dicotomia no conceito de natureza e homem começa a surgir em Platão e Aristóteles. Platão dizia que somente a idéia era perfeita em oposição à realidade mundana, ou seja, o homem era perfeito em oposição da imperfeição da natureza.
Podemos destacar também Tales de Mileto (que buscava explicar a natureza através de elementos dela própria, dessacralizando um pouco a natureza), Pitágoras (dizendo que a Terra era esférica e as distancias dos elementos da natureza tinha proporção geométrica) e Sócrates (criando uma filosofia humanista e uma filosofia naturalista, prenunciando a divisão de ciências no século XIX).
BAUAB (2009, p.94-95) e MOREIRA (p.54-55) dizem que a concepção de mundo na teoria “Geocêntrica” de Aristóteles e Ptolomeu (originadas da antiguidade greco-romana) dividia o mundo em Sub-Lunar (mundo dos homens, sendo imperfeito e corruptível) e mundo Supra-Lunar (mundo da “natureza”, sendo perfeito, eterno e absoluto), além de colocar o Planeta Terra como centro do universo.
A visão de que o homem como centro da Criação, assim como o resto da natureza sendo inferior aos humanos surge em parte da tradição grega e na tradição judaico-cristã, tanto no Velho, como no Novo Testamento. BÍBLIA-PORTUGUÊS (2010, p.13) diz que “no quinto dia” deus criou os animais (selvagens e domésticos) e depois no final deste “quinto dia” cria o homem “à sua imagem e semelhança”, “para que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais selvagens e todos os répteis que rastejam sobre a terra”, onde o macho e a fêmea humana deveriam se “fecundar, crescer, se multiplicar, encher a Terra e submetê-la” (as plantas e os animais devem lhe servir de alimento). As oposições entre homem-natureza e espírito-matéria adquirem uma maior dimensão.
As idéias de Aristóteles sofreram influências da Bíblia (Antigo Testamento[19]), mas serão somente com Santo Agostinho (354-431) e São Tomás de Aquino (1225-1274) que elas tomam novas proporções (o “aristotelismo cristianizado” também chamado de “cristianismo peripatético”). Estes dois filósofos adaptam e incorporam a filosofia aristotélica para o catolicismo, unindo ciência e religião. Eles falam em Geocentrismo, Universo Infinito, separação corpo-alma, sepação física-metafísica, mas o central deste pensamento é unificar essência com aparência e forma com conteúdo (pois o universo é deus, é forma e é conteúdo, sendo perfeito e finito). BAUAB (2009, p.94) mostra as influências recíprocas de Aristóteles com a Igreja Católica:
O século XIII será um importante marco para as formas de pensamento do Ocidente Medieval. Nele, Aristóteles será cristianizado, trazendo profundas mudanças na teologia cristã, até então sob forte influência platônica e neoplatônica. As incompatibilidades do pensamento aristotélico frente os dogmas da Igreja serão, não sem contestações, esquecidas, sobrepujadas pela adaptação que a filosofia do Estagirita sofrerá. Se o mundo da física aristotélica era eterno, se a alma dos seres individuais era concebida enquanto elemento inseparável do corpo, tudo isso será suprimido em proveito de outras inúmeras idéias

A Igreja Católica voltará a sacralizar a natureza, regredindo e negando o pensamento grego-romano. Importante lembrar que a sociedade estava se ruralizando novamente, pois a idéia de cidade grega (polis) tinha sido colocada “água abaixo”. Por mais que nas cidades-Burgos houvesse uma significativa urbanização, esta não pode ser comparada com as polis gregas.
Durante os séculos XIII à XVII temos o período do Renascimento, que contestará veementemente as idéias da Igreja Católica. BAUAB (2009, p.95) diz que contra o “aristotelismo cristianizado – ou cristianismo peripatético – que se voltarão boa parte dos autores renascentistas”. Temos agora o Antropocentrismo se opondo ao Geocentrismo da Igreja Católica (que foi influenciada em Aristóteles-Ptolomeu). Temos uma pequena separação da Ciência com a Religião, deixando um pouco de lado a visão de mundo cosmológica em que deus é soberano na criação de tudo. O Renascimento coloca o Homem na História, colocando a lógica da Razão para se compreender o mundo.
Vários artistas e cientistas representam este período decisivo na história mundial, surgindo num contexto conturbado, com mudanças estruturais no mundo mental e material surgido com a crise do feudalismo e a emergência do capitalismo. O tempo era de renovação e de efervescência cultural-política, CARVALHO (2003, p.39-40) destaca neste período o ressurgimento do comércio e das cidades, da constituição das manufaturas, a constituição dos estados-nacionais (países), a expansão marítima e a incorporação de outros continentes (como América, Oceania, África) ao “horizonte geográfico” europeu.
No tocante à artistas, podemos citar o pintor Giotto di Bondone (1266-1337), que fazia quadros com a noção de tridimensionalidade (superando a visão de mundo na bidimensionalidade) e o pintor Pietro Della Francesca (1415-1492) que além de usar a tridimensionalidade, utilizava a perspectiva e o ponto de fuga (dando a noção de infinito, chocando-se com a visão de “Universo Finito” da igreja Católica). Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-1564) também deve ser destacado, pois vemos em sua obra a visão de uma imperfeição do mundo e de deus (que aparece quando se aproxima Homem com Deus).
No ramo científico, destacam-se Giordano Bruno (1548–1600), que contestava o Geocentrismo e à visão de aparência como essência (existindo muitas coisas além das aparências[20]), defendendo o “Heliocentrismo” de Copérnico e a idéia de um universo infinito. BAUAB (2009, p.95) diz que em sua obra há “evidentes traços neoplatônicos, de um animismo renascentista que trata os planetas enquanto grandes animais portadores de alma” e haveria também “elogios a Heráclito (540-475 a.C), Lucrécio (95-54 a.C) e outros autores antigos que o auxiliaram na derrocada do sistema de mundo medieval”.
BAUAB (2009, p.95) diz que as pessoas compreendiam a natureza como um imenso ser vivo, não regulado pela fixidez previsível das leis da física aristotélica. Paracelso (1493-1541) defendia, “à maneira dos alquimistas, uma intervenção eficiente no mundo natural – principalmente das doenças – através do controle de seus elementos e da observação dos astros”. O “controle da natureza se daria através do conhecimento do jogo de antipatias e simpatias que regeria a totalidade das coisas existentes”.
Segundo MOREIRA (2006, p.55), em Nicolau Copérnico (1473-1543) o sistema solar será compreendido pela via heliocêntrica. O “Heliocentrismo” de Copérnico vai romper com a concepção de mundo na teoria “Geocêntrica”. O “centro do Universo” seria agora o Sol e não mais o planeta Terra. BAUAB (2009, p.96) cita Douglas Santos (em “A reinvenção do espaço: diálogos em torno da construção de uma categoria”) e diz que a noção de “Heliocentrismo” significará “um radical deslocamento da concepção de homem, natureza, ambiente e, por conseqüência, das próprias noções de espaço e tempo”. Esta noção dará inicio à astronomia moderna (baseada na mecânica celeste) e à física moderna (baseada na mecânica dos pequenos corpos da superfície terrestre). Temos o surgimento da ciência moderna.
Um século após o Renascimento e suas idéias revolucionárias, entraremos no período da Revolução Mecanicista, representados por Kepler, Galileu, Bacon, Descartes e Newton.
Segundo MOREIRA (2006, p.55), para sepultar ainda mais a concepção Geocêntrica de Aristóteles-Ptolomeu, Kepler (1571-1630) descobre a “forma elíptica dos astros”, demolindo as noções “aristotélico-ptolomaica de um universo estruturado em esferas concêntricas”, alterando a visão hegemônica do Clero (Igreja Católica), em sua teoria de mundo-Deus. BAUAB (2009, p.96) afirma que Kepler, em 1577, acabará com a idéia de universo finito ao calcular “a distância de um cometa que cortava o céu para além do mundo celeste de Aristóteles e inferiu acerca da trajetória elíptica deste cometa, que deveria atravessar as rígidas esferas cristalinas defendidas pela física aristotélica”.
MOREIRA (2006, p.55 e 57), diz que Galileu Galilei (1564-1642) inventa a luneta, dando mais solidez à teoria de mecânica celeste de Kepler. Galileu trava combate contra o “aristotelismo cristianizado” e começa a pensar na compreensão de todo o universo com base nas leis mecânicas. Divide a Natureza em: “Qualidades Primárias” (seria a “Natureza”, objetivo, mensurável, quantitativo, conhecido e controlável) e em “Qualidades Secundárias” (não tem existência objetiva, sendo o Homem). Em Galileu a Natureza está dissociada de Deus (tendo uma pequena dessacralização da natureza, sendo prematuramente considerada como “recurso natural e produtivo”) e ela não é inescrutável, podendo ser desvendada principalmente pela lógica matemática.
BAUAB (2009, p.98) diz que em Galileu há uma separação entre Deus e Natureza, possuindo “sentidos distintos, onde a religião como fenômeno humano, não encontra equivalência no mundo físico-matemático galileano”. O objeto (natureza) é aqui plenamente afastado do sujeito (homem), ou seja, há uma distinção clara entre homem-natureza. BAUAB (2009, p.99) diz que “natureza independeria do pensamento, das sensações, da afetividade humana. Correria solta, regular, mecânica, repleta de números invisíveis paralelamente à vida social e às imagens que por vezes transpomos para ela”. Segundo MOREIRA (2006, p.57): “Se a natureza é um grande relógio que funciona com a regularidade mecânica do movimento dos corpos celestes, Deus é o relojoeiro”, ou seja, como diria BAUAB (2009, p.97): “regularmente disposto, necessariamente repetitivo e constante”. A ciência cuida da coisa física e o homem da metafísica.
Francis Bacon (1561-1626) teria sido um ideólogo da concepção de mundo como máquina, mostrando sua natureza mecânica. Segundo CARVALHO (2003, p.47), Bacon se antecipa e sintetiza o pensamento de natureza que os “tempos modernos” conceberão, afirmando que:
(...) “o conhecimento filosófico tem como finalidade servir o homem, dar-lhe poder sobre a natureza” e restabelecer o que chamou de Imperium Hominis, isto é, o império do homem sobre as coisas. Para atingir tais intentos, Bacon não poupou palavras e propôs que a natureza fosse “obrigada a servir”, “escravizada”, “reduzida à obediência”, e que “sob tortura” os sábios dela extraíssem todos os segredos. [grifo do autor]

Segundo MOREIRA (2006, p.56), a consistência filosófica desta discussão de Galileu se dará com René Descartes (1596-1650), ao fundar a compreensão do “comportamento dos fenômenos na geometrização do mundo”. Distingue o mundo em “res extensa” (mundo dos corpos externos, é a “formulação cartesiana de espaço”, onde os corpos externos no espaço são distintos uns dos outros por suas formas e posição na extensão circundante) e “res cogitans” (mundo do ser pensante, das idéias). Descartes dividirá o corpo da mente, separando corpo de mente, meio ambiente social do meio ambiente social. BAUAB (2009, p.99) cita algumas idéias críticas do físico Fritjof Capra (no livro “O ponto de mutação”) e mostra que o cartesianismo separa tudo:
O aspecto psicológico do indivíduo estaria apartado de seu aparato físico, o aspecto social distinto do econômico, a ética não seria universal a ponto de submeter o profissional à convenção de certos limites, a vida econômica não se interessaria por qualquer conseqüência ambiental... e assim sucessivamente.

Seu método virou método científico, onde o ideal de toda ciência seria o de formular uma descrição objetiva da natureza. CARVALHO (2003, p.48) percebe que Descartes dizia que a descrição só seria possível de ser realizada, uma vez que a natureza “nada mais é do que uma máquina perfeita submetida a leis mecânicas exatas”. Temos a geometrização da extensão do mundo, ou seja, uma concepção físico-matemática do mundo.
Em Descartes o mundo agora é uma máquina e o homem está fora do mundo (natureza). Para se entender o mundo, o homem tem de dar ordem nele e a partir disso ir fragmentando e classificando. Torna-se primordial o empirismo, a descrição, a fragmentação, o ordenamento e a classificação.
MOREIRA (2006, p.56-60) diz que em Descartes vemos o desenvolvimento do Método experimental-matemático, que separa fenômeno do seu meio, analisado em ambiente fechado do laboratório, comportamento reproduzido à exaustão, da repetição exaustiva se descobre o padrão de constância matemática que convalida a regularidade de repetição como lei.
Descartes foi conservador, retomando algumas idéias do “aristotelismo cristianizado” de São Tomás de Aquino sobre homem, deus e natureza. Há uma separação sujeito e objeto, da mente e do corpo, onde deus seria perfeito e o homem não seria. O homem seria superior à natureza porque consegue perceber a perfeição de deus na mente (“eu penso, logo existo”), na sua racionalidade, até porque possuiria “alma”, coisa que não ocorrerá em outros seres vivos da natureza. À medida que o homem se torna racional, ele encontra deus e se separará do corpo.
Portanto, teremos uma grande dicotomia homem e natureza em Descartes, não existindo um “deus físico” (mas sim na mente racional humana). Além de termos visão antropocêntrica (homem sendo centro do mundo), há uma dessacralização da natureza, concebendo-a como “recurso humano”, como podemos ver em DESCARTES (1999, p.86): “Poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza”.
Para que o uso da razão fosse bem utilizado pelas pessoas, elas deveriam realizar uma ruptura, negar um “conjunto de valores, noções e preconceitos” que estão presentes na retórica da sociedade feudal prestes a desmoronar. O antropocentrismo de Descartes não pode ser desvinculado da conjuntura social da época, onde o mercantilismo e o surgimento da sociedade capitalista despontavam no horizonte produtivo das sociedades. BAUAB (2009, p.101) faz a seguinte reflexão:
(...) Descartes logo sugere quatro preceitos que, gradativamente, se tornariam basilares na edificação da racionalidade científica: 1) não se precipitar em aceitar algo como verdadeiro; 2) repartir as dificuldades em quantas partes forem possíveis; 3) conduzir o pensamento dos objetos mais simples para os mais complexos; 4) realizar relações completas, metódicas e revisões gerais para evitar omissões.

O antropocentrismo consagrará a capacidade humana de dominar a natureza. BAUAB (2009, p.102) diz que: “Deus não é natureza. Criou o mundo físico, deu-lhe um primeiro impulso, mas, desde então, não pode mais ser buscado nele”. Natureza vira máquina, um custo de produção (matéria-prima) para as necessidades sociais capitalistas.
Segundo MOREIRA (2006, p.62), a concepção físico-matemática do mundo de Descartes será aprimorada com Isaac Newton (1642-1727), aonde a unidade físico-matemática de mundo se explicita pelo conteúdo de uma lei única regendo todos os corpos em todo o universo (a lei da gravidade). A visão gravitacional significa a dessacralização da natureza, pois terá uma lei natural intrínseca à ela e não mais à leis divinas. O “mundo-corpo-divino do espaço sagrado” é substituído pelo “mundo-corpo-fisico-matematico do espaço geométrico”.
MOREIRA (2006, p.62) diz que esta visão compartimentada do mundo em “homem e natureza” entende que estes são coisas distintas e indissociáveis, visão que caracterizará o pensamento moderno. Se antes o homem se integrava conceitualmente ao mundo circundante (mesmo nos conceitos teleológicos do cristianismo) no pensamento cientifico moderno dele se aparta inteiramente. O “corpo do homem” faz parte da natureza e o “espírito do homem” não faz parte da natureza. Deus quem integrará o homem fragmentado à natureza.
Segundo MOREIRA (2006, p.60-62), nesta concepção físico-matemática do mundo de Descartes e Newton, a natureza é uma coleção de coisas físicas que se interligam pelas relações espaciais externas, de origem mecânica e matemática. Natureza é uma coleção de corpos apreensíveis, previsível e controlável, com comportamento repetitivo, regular e constante, regido por leis preditivas a natureza torna-se uma grande máquina uma engrenagem de movimentos precisos e perfeitos, que o homem pode controlar e transformar em artefatos técnicos, explorando para fins econômicos. Esta passagem de BLUWOL (2009, p.47-48) é importante para refletir sobre o cartesianismo:
A filosofia cartesiana, enquanto modo de se compreender o mundo baseado em uma visão mecanicista da natureza, foi altamente adequada para o crescimento da burguesia mercantil. Com a dessacralização da natureza, foi possível passar a explorar a natureza de um modo muito mais agressivo, sem culpas ou preocupações de cunho metafísico, pois uma moralidade baseada no temor a um deus que poderia se enervar com certos tipos de agressão à sua criação não mais era um grande problema para a emergente burguesia. Podia-se, então, compartimentar a natureza, esquartejá-la, pois era algo morto, não mais habitado por deuses. A natureza virou matéria-prima, os animais viraram máquinas

Segundo MOREIRA (2006, p.60), esta concepção mecanicista e pragmática de natureza de Descartes e Newton influenciarão a Revolução Industrial[21], o surgimento da Sociedade Capitalista e a Ciência moderna. O “cientista trabalhará em uma realidade diferente pelo novo a priori do olhar criado”. A Ciência moderna está comprometida com o projeto histórico de construção técnica do capitalismo, ciência é transformada em força produtiva. Fabrica é um universo de movimentos mecânicos, representa uma “miniatura da engrenagem da natureza”. Natureza vira uma fonte inesgotável de recurso econômico, vira custo de produção para fins de acumulação de capital. O ser humano também é reduzido à meio de produção ou custo de produção, virando força de trabalho.
Pensadores burgueses como Francis Bacon, Adam Smith e David Ricardo tratarão natureza como custo de produção, uma fonte constante crescente de produtividade e de riqueza das nações. David Ricardo dizia que a terra é um importante custo de produção quando destaca a questão da fertilidade da terra e do preço dos produtos.
No século XVIII temos uma ruptura com a concepção da natureza-máquina (do naturalismo mecanicista), com as determinações físico-matemáticos da natureza. Isso ocorre porque começam a haver preocupações com a “estrutura interna da natureza” através do desenvolvimento das ciências biologia e química. O desenvolvimento industrial necessitava ultrapassar o conceito de ciência e natureza, para ter uma mais adequada ao desenvolvimento da técnica, mesmo que isto significasse “romper o pacto de partilha de concepção do mundo que fizera com a Igreja Católica”. Não significa “romper um paradigma, mas readequar o conceito de natureza” referendada na física-matemática e para outras ciências.
Segundo MOREIRA (2006, p.63-64), os principais representantes desta ruptura foram: Huygens (1707-1795) com as teorias dos movimentos ondulatórios e movimento corpuscular; Lineu (1741-1783) e Buffon (1707-1788) com sistemas de classificação de animais e vegetais (prenunciando a idéia de “evolução”); Lavoisier (1743-1794) com lei de transformação e conservação de energia (teoria atomística da composição dos elementos da natureza, reafirmando “evolução”). Os naturalistas e biólogos Lavoisier e Lamarck (1744-1829) vão formatando a idéia de movimento evolutivo das espécies.
A Revolução Francesa (1789) faz com que se tenha uma nova concepção de natureza, homem e de mundo. Graças ao Iluminismo temos uma ruptura da Antiguidade para a Modernidade. No feudalismo tínhamos o absolutismo e o Direito Divino do Clero e Nobreza. Com o Iluminismo temos agora o Direito Civil (com Estado Laico), sendo a hierarquia social e não mais divina. Temos o surgimento da noção moderna de libertação e emancipação humana que está na consciência do Homem (e na questão estrutural, segundo Karl Marx e F. Engels).
Segundo MOREIRA (2006, p.64), com o Iluminismo surgirá os filósofos que refletem e tentam elucidar problemas (como a descoberta de pluralidade das formas de movimento; relação da vida com a história; historia da evolução e transformação da natureza e do homem; etc): E. Kant (1724-1804), o trio Fichte (1762-1814), Schelling (1775-1854) e Hegel (1770-1831, A. Comte (1798-1857), Thomas Malthus (1766-1834), Charles Darwin (1809-1882), Spencer (1802-1903).
Segundo MOREIRA (2006, p.66-67), com A. Comte (1798-1857), o conceito de natureza continuará reduzido às leis invariáveis da física e matemática, mas haverá uma brusca separação entre ciências da natureza e ciências do homem (que tem a sua “física social”, a sociologia).
Importante destacar que a idéia de evolucionismo de Charles Darwin só foi possível com a Revolução Francesa e com as concepções de Huygens-Lineu-Lamarck-Buffon-Lavoisier. Darwin diz que o homem se origina da evolução natural, do desenvolvimento histórico natural da própria natureza. MOREIRA (2006, p.67) diz que ele “retira homem do céu e finca raízes no reino da Terra”.
As idéias de Darwin foram adaptadas à ideologia do liberalismo clássico, pois a “seleção natural” – dos mais fortes sobrepondo os mais fracos – legitimaria a estrutura de classes da sociedade capitalista[22].
O conceito de natureza em nossa sociedade capitalista pode ser compreendido como sendo desumanizado. Aos poucos nossa sociedade tira Deus e o homem da natureza. Isso ocorre para que haja uma melhor reprodução social, pra legitimar a lógica capitalista. Natureza vira recurso, matéria-prima e custo de produção.
Esta visão dicotomizada do homem em relação à natureza, com o homem sendo superior em relação à natureza (sendo esta um custo de produção) está muito presente nas análises contemporâneas – seja do senso comum, nas escolas ou em estudos científicos.
Importante lembrar que a dicotomia homem-natureza não é um problema, sendo esta uma constatação, pois o homem se diferencia da natureza desde o momento em que se torna “uma natureza que toma consciência de si mesma”. Esta dicotomia não será um problema desde que o homem não trate a natureza como  “recurso natural” e “custo de produção”.
No fim do século XIX e começo do século XX começam a despontar perspectivas que possam superar esta visão fragmentária e pragmática da natureza e do homem.
Os franceses Henri Becquerel, Pierre Curie e Marie Curie descobriram e pesquisaram a radioatividade, que mostra a capacidade que alguns átomos presentes na natureza apresentam de espontaneamente transformarem em outros.
A já citada noção de “Ecologia” preconizada por Haeckel ajuda a superar algumas contradições. Entretanto, é necessário destacar os cientistas Albert Einstein (1879-1955), J. J. Thompson (1865-1940, que provou a existência dos elétrons), Max Planck, Niels Bahr e Werner Heisenberg, que fundam a Física relativista e o pensamento quântico, que revolucionarão os clássicos conceitos newtonianos sobre a estrutura e a natureza da matéria, que conseqüentemente abrirão o debate dos rumos do conceito de natureza. Segundo CARVALHO (2003, p.72):
(...) a natureza não é composta por partículas materiais, no sentido de coisas sólidas e palpáveis, mas sim pelo “resultado” das interrelações entre os diversos fatores, por sua vez também resultam de outra interrelação, e assim por diante. Segundo uma comparação esclarecedora de um famoso físico, “não há dançarino, somente dança”.

Isto significa que os elementos estão intrinsecamente integrados, dependentes e conectados. A física quântica traduz a concepção holística de universo e avançará sobre os movimentos ecologistas do final do século XX e começo do século XXI.
O marxismo faz uma importante analise sobre a relação homem-natureza, mostrando que o homem (sobretudo o vivente na sociedade capitalista) tem um papel determinante na definição dos elementos naturais, ou seja, é um importante elemento na determinação dos lugares. Segundo ALTVATER (2006, p.337), para os marxistas a natureza “(...) é uma totalidade extremamente complexa das relações natureza-homem (...)”, sendo síntese, produto e condição de novas sínteses. Portanto, os marxistas foram importantes na percepção de que a natureza na sociedade capitalista vira “condições gerais de produção”, sendo que o “meio ambiente” é construído para o consumo, sendo um marco físico da (e para a) produção.
MORAES (1990, p.45) cita Alfred Smith[23] que diz que há uma “inexistência de uma perspectiva ontológica da natureza no interior da obra de Marx”. Portanto, os “fenômenos naturais nunca são enfocados em seu movimento intrínseco, porém abordados como recursos para a vida humana” [grifo do autor]. Haveria uma “natureza para o homem”.
Para contrapor à esta idéia, MORAES (1990, p.45) cita Karl Marx[24] que discute o envolvimento com todos os processos produtivos como sendo pressuposto geral de toda a produção, onde a matéria ambiental pré-existe ao trabalho humano. Isto significa dizer que a natureza é um importante elemento da produção que sempre foi considerado nas obras de Marx e dos marxistas.
MORAES (1990, p.46) e SMITH (1988) dizem que Marx teria criado a noção de “primeira natureza” (quadros naturais intocados pelo homem) e de “segunda natureza” (uma “natureza socializada”, modificada pela sociedade). MORAES (1990, p.46) fala que a história humana seria uma: “ininterrupta transformação da primeira em segunda natureza, num processo onde o homem vai alterando as paisagens da superfície da Terra, imprimindo-lhes a sua marca”. Esta abordagem faz com que os fenômenos naturais sejam “tomados nas suas implicações com o processo de reprodução da vida humana, isto é, como fatores e recursos dinamizados pelo trabalho”. Importante destacar que MARTINS (2009, p.23) critica esta noção e chega a dizer que esta teria sido “criada por Neil Smith e inexiste em Marx”[25].
Entretanto, o que importa é que esta noção de “primeira e segunda natureza” é importante porque faz refletir sobre a sociedade. MORAES (1990, p.46) diz que “(...) a relação do homem com a natureza é função das relações estabelecidas pelos e entre os homens num dado modo de produção”, ou seja, devem-se compreender os fenômenos naturais pela ótica dos fenômenos sociais, sendo que a análise de fenômenos sociais possui relações ideológicas de quem está analisando e possui influências sociais do Modo de Produção da sociedade em que o cientista está inserido. A questão ambiental é a manifestação das relações e processos sociais, “(...) pelos quais uma dada sociedade organiza o acesso e uso dos recursos naturais disponíveis” (avaliada num contexto de um modo de produção e de uma formação econômica e social).
Portanto, MORAES (1990, p.46) reflete que se para os marxistas “(...) o relacionamento do homem com seu ambiente é equacionada no bojo de relações sociais historicamente determinadas”, compreende-se ser de suma importância a análise das formas com que as técnicas foram sendo apropriadas pelas sociedades: “o instrumental técnico disponível exprime as forças produtivas de uma dada sociedade[26], às quais corresponde uma certa divisão social do trabalho e relações de produção também específicas”.  O “instrumental técnico” que definirá “as formas de apropriação da natureza e o acesso aos diferentes grupos sociais aos recursos do ambiente”. Concordo com a afirmação de SANTOS (2005, p.143) a este respeito:
(...) não se pode pensar em técnica ou, mais explicitamente, em objeto técnico, sem pensar paralelamente, na sociedade que os anima. Isso pode ser dito de maneira mais direta: nenhuma técnica é apenas materialidade técnica: a técnica é também social. E sobretudo nos dias de hoje, neste período técnico-científico da história, nada é puramente social, mas também é igualmente técnico. Enfim, tudo é híbrido, misto.

Marx e os marxistas também possuem uma importante noção de “determinações naturais” (que é diferente de “determinismo natural”), onde estas “determinações naturais” interferem nas relações desiguais das classes sociais com as relações de trabalho e de propriedade (a propriedade privada garantiria ao possuidor o domínio sobre esta porção de território e dos recursos lá existentes). As noções marxistas de que a natureza se modifica pelo trabalho humano, que o ser humano se diferencia da natureza pelo trabalho e de que a natureza vira custo de produção na sociedade capitalista são importantíssimas para a compreensão as relações sociais.
Uma visão de mundo que integra homem-natureza e que não trate natureza como um recurso natural ou custo de produção só poderá ser atingido com o fim da sociedade capitalista. A sociedade capitalista nunca deixará de agir predatoriamente na natureza, pois é de sua “natureza” expropriar a natureza para transformar em matéria-prima.


A Falácia do “Conceito” de “Desenvolvimento Sustentável” e Contradições do Movimento Ambientalista

Um dos problemas da ecologia e do pensamento ecológico tem sido a questão do tratamento dado ao homem. Já vimos que essa dificuldade tem profundas raízes no nosso processo civilizatório. Não é raro ouvirmos frases do tipo: “o homem está destruindo a natureza!”, ao mesmo tempo que se evoca o exemplo de comunidades indígenas como modelo e paradigma da relação homem-natureza. E aqui cabe a interrogação: não são indígenas homens? Se o são, e essa é uma verdade inquestionável pelo menos para a biologia, de que tipo de homens estamos falando quando se afirma que o “homem está destruindo a natureza”? Claro que quando se trata dos indígenas está se falando de uma outra sociedade – de uma outra organização social, de uma outra cultura. Ora, se isto é verdadeiro, não são os homens enquanto categoria genérica que estão destruindo a natureza, mas sim o homem sob determinadas formas de organização social, no seio de uma cultura. (p. 75, GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Os (Des)caminhos do Meio Ambiente. São Paulo, Contexto, 2000).


Sem natureza não há sociedade, sem sociedade não há natureza. As análises cientificas tem muita dificuldade de “por a natureza na discussão da sociedade”, até porque discutir natureza é discutir sociedade.
A natureza não pode ser entendida simplesmente como o lugar onde os homens podem tirar as coisas para seu sustento ou talvez possam morar. Ela tem de ser compreendida de uma maneira mais ampla, pois o homem é parte integrante da natureza.
Temos de integrar o homem à natureza, mas também temos de saber diferenciá-lo na natureza. Como já foi dito anteriormente, “o homem é a natureza que toma consciência de si mesma”. Isto significa que o homem tem de ser integrado e diferenciado. Podemos também afirmar que “quando um homem explora outro homem, está explorando uma parte da natureza” (BLUWOL, 2009, p.44).
No entanto, dizer somente que “o homem é parte integrante da natureza” é insuficiente, esta critica em si não basta, este entendimento é um acréscimo insignificante. Não basta ter “consciência ecológica” ou saber que “o homem é parte integrante da natureza”. A crítica tem de ser mais estrutural do que ideológica (retomarei esta crítica estrutural no final deste sub-capitulo).
Temos de entender “qual é a nossa consciência de noção da natureza” e ter a ”consciência do conceito de natureza da nossa sociedade” para se poder criticar e superar este conceito. Segundo BLUWOL (2009, p.50):
Quem destrói o seu meio ambiente é certa parcela da humanidade sob certa cultura, que gera certo conceito de natureza, que na prática é a própria relação desses humanos com o resto da natureza. Em nosso mundo, essa relação pode ser entendida como o próprio modo de produção capitalista.

O Homem sempre interferirá na natureza, pois ele necessita dela para a sua sobrevivência. HARVEY (2004, p.266) diz que:
(...) Nossas idéias, concepções, visões (ou seja, nossa “consciência”) se altera em função de cada mudança das condições materiais da existência e que a forma material de um modo de produção dá origem a estruturas políticas, institucionais e legais que aprisionam nossos pensamentos e possibilidades de maneiras particulares.

É necessário que se faça a reflexão já debatida neste capítulo: “sem natureza não há sociedade e sem sociedade não há natureza”. Seria equivocado achar que o ser humano deveria parar de interferir na natureza, pois isso sempre ocorreu e sempre ocorrerá. O que deve ser questionado é a degradação predatória e irracional dos recursos naturais e ambientes terrestres, que diminuem a qualidade de vida humana e o equilíbrio da vida neste planeta. Portanto, é equivocado a visão que diz que o homem não pode interferir na natureza, pois sempre vai interferir, só que com menor ou maior intensidade, de acordo com o modo de produção das sociedades.
De acordo com seu Modo de Produção, as Sociedades podem interferir mais ou menos na natureza, ou conceber o Homem como sendo superior ao restante da natureza. A sociedade Capitalista interfere mais no Meio Ambiente e concebe o homem como sendo superior ao restante da natureza.
O ser humano desde o momento em que “controlou o fogo” vem provocando alterações continuas e substanciais na atmosfera e nos ambientes terrestres. Entretanto, este ser humano vivente na sociedade capitalista está cada vez mais degradando ambientes terrestres, explorando intensivamente os elementos da natureza e degradando boa parte dos ambientes.
O Capitalismo interfere mais no Meio Ambiente porque somos uma sociedade altamente tecnológica e consumista. Os objetos tecnológicos precisam muito de natureza (seja ele um computador, um avião ou uma embalagem plástica) e o consumismo é uma necessidade da sociedade capitalista (pois o rápido consumo gira a economia de mercado e impossibilita riscos de crises de superprodução).
O Desenvolvimento Sustentável é uma idéia que só pode surgir na sociedade capitalista, sendo incompatível numa sociedade que não concebe a natureza como recurso natural (como a indígena e a socialista). A idéia de Desenvolvimento Sustentável foi Influenciada por preceitos neomalthusianos, a crítica ambientalista tem fortes influências neomalthusianas e carrega um ranço “catastrofista”.
O neomalthusianismo foi influenciado pelas idéias do economista e pastor inglês Thomas Malthus (1766-1834). Este estava preocupado com os “recursos naturais” existentes no mundo, criando uma teoria (“princípio da população”) que diz que “a população cresce em proporção geométrica e a produção de alimentos cresce em progressão aritmética”. Além de se ter uma preocupação com os recursos naturais, Malthus fazia uma crítica à produção agrícola familiar (que não era tecnológica e produzia produtos agrícolas em pequena quantidade), defendia o “estímulo da expansão agrícola” e tecia críticas às famílias pobres (e países subdesenvolvidos ou com o capitalismo não desenvolvido)[27].
As preocupações de Malthus eram imperialistas e capitalistas, pois se buscava uma expansão das relações produtivas capitalistas e um privilégio do Império inglês. As discussões realizadas por Malthus devem ser situadas dentro dos debates realizados por ele David Ricardo e Adam Smith, que expressam divergências nos debates realizados pela burguesia inglesa a partir da segunda metade do século XVIII sobre o desenvolvimento do capitalismo[28].
Apesar de colocar a sociedade nas dinâmicas populacionais, Malthus era conservador e reacionário ao negar a luta de classes e por “naturalizar a pobreza” (utiliza-se de um silogismo que diz que “os pobres são pobres porque são pobres”). OLIVEIRA (1985, p.8), diz que a Malthus tinha como preocupação:
Sua preocupação inicial, quando ele aborda a população, estava direcionada no sentido de entender “relações sociais”, porque o capital se acumulava neste ou naquele ritmo, porque população e capital vão determinar uma taxa de salários; porque o movimento da população pode contrabalançar a tendência da acumulação em fazendo baixar ou aumentar os salários.

Apesar desta postura conservadora, MOREIRA (2004-a, p.63) diz que Malthus considerava que os fenômenos populacionais eram aspectos de um processo social e global, norteados pelo processo de acumulação do capital. Isto significa dizer que “mesmo não explicitada”, os fenômenos populacionais são frutos das “relações contraditórias de classes sociais”.
Malthus defendia a contenção da população através do retardamento na idade dos casamentos, abstinência sexual e no planejamento familiar, sendo que poderia ser contido por catástrofes naturais, guerras e epidemias generalizadas.
Os preceitos da teoria populacional de Malthus serão utilizados por muitas décadas nas políticas estatais, nas leituras científicas das dinâmicas populacionais e no senso comum das pessoas. Esta visão é questionada pelos preceitos marxistas e terá uma retomada no discurso ambientalista da década de 1970, revestido de uma nova “capa”, chamada agora de neomalthusiana.
A teoria populacional marxista considera que é a própria miséria a responsável pelo acelerado crescimento populacional. Defendem reformas de caráter sócio-econômico (fazer políticas estruturais) que possibilitem a melhoria do padrão de vida das populações dos países subdesenvolvidos, pois isso traria por conseqüência o planejamento familiar espontâneo e a redução das taxas de natalidade e de crescimento vegetativo (tal como ocorreu em vários países hoje desenvolvidos economicamente).
Não existe um “estudo da população” em Marx e Engels, mas subentende-se que o Modo de Produção determinará as dinâmicas populacionais (sendo estas regidas pelas leis dos Modos de Produção). Portanto, a própria dinâmica da produção histórica da sociedade que determinará a dinâmica da demografia. No Modo de Produção Capitalista as dinâmicas populacionais se manifestarão na “reprodução da força de trabalho” e no “exército industrial de reserva”[29] (que rege os termos da reprodução da força de trabalho).
Segundo MOREIRA (2004-a, p.67), as proposições populacionais de Marx e Engels superariam o “historicismo linear e mecanicista” de Malthus (ao afirmar o caráter social e histórico-concreto dos fenômenos populacionais), Smith e Ricardo (situando na esfera da produção a raiz dos fenômenos populacionais).
É necessário se levar em conta as determinações sociais e produtivas para o entendimento da dinâmica populacional, sendo que a força de trabalho será influenciada pelas dinâmicas do trabalho. Segundo OLIVEIRA (1985, p.19):
Uma teoria da população a partir de Marx toma o movimento de acumulação de capital como determinante; este movimento é que produz a força de trabalho na ativa e na reserva, e são os movimentos da força de trabalho que estão no cerne das mediações entre a população e seus estoques.

Os neomalthusianistas omitem uma importante preocupação de Malthus, que era tentar compreender as relações sociais, ou seja, buscam “alterar os comportamentos reprodutivos sem alterar as condições de vida”[30].
Os neomalthusianos se diferenciam em poucas coisas com o malthusiano, mas a preocupação das duas teorias é a mesma, que é uma defesa do controle populacional. O neomalthusianismo não focam na defesa à preceitos morais para conter o crescimento populacional, mas pelo controle da natalidade através do planejamento familiar[31]. Além disso, para os neomalthusianos a produção de alimentos é um problema superável, haja vista os progressos da ciência e tecnologia aplicados ao campo.
A sociedade capitalista cria esta idéia de Desenvolvimento Sustentável para racionalizar ainda mais sua exploração de recursos naturais e por “achar” que estava destruindo em demasia a natureza. ALTVATER (2006, p.341-47) reflete que a “crise ecológica” e a noção de Sustentabilidade surgirão a partir do momento que a sociedade capitalista se torna planetária e necessitará de natureza (matéria-prima, custos de produção) para a realização de capitais. Neste sentido, a degradação da natureza é degradação das condições gerais de produção, onde a Sustentabilidade significa uma racionalidade na gestão de recursos para não haver esgotamento e danos para a sociedade capitalista.
A Idéia de “Desenvolvimento Sustentável” começa a ser formatada na Primeira Conferência Mundial das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (em 1978) e surge para se “opor” às idéias do “Clube de Roma” (formado em 1968, dizendo que a terra tinha recursos naturais limitados e defendia como solução o controle de natalidade e do crescimento econômico dos países pobres). As idéias do Clube de Roma serão publicadas no relatório “Os limites do crescimento” (de 1971) e que será a base da Conferência de Estocolmo (organizado pela ONU em 1972). A ideologia do relatório “Os limites do crescimento” pode ser observado na passagem de MEADOWS (1973, p.19.):
Se as atuais tendências de crescimento da população mundial — industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais — continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial.
É possível modificar essas tendências de crescimento e formar uma condição de estabilidade ecológica e econômica que se possa manter até um futuro remoto. O estado de equilíbrio global poderá ser planejado de tal modo que as necessidades materiais básicas de cada pessoa na Terra sejam satisfeitas, e que cada pessoa tenha igual oportunidade de realizar seu potencial humano individual.
Se a população do mundo decidir empenhar-se em obter esse segundo resultado, em vez de lutar pelo primeiro, quanto mais cedo ela começar a trabalhar para alcançá-lo, maiores serão suas possibilidades de êxito.

Estas idéias elitistas e preconceituosas foram amenizadas no relatório “Nosso Futuro Comum” (publicado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1987) ao dizer que não são os países pobres os maiores responsáveis pela devastação do planeta, mas os países mais ricos, que consomem mais recursos e geram mais poluição. O relatório “Nosso Futuro Comum” foi assinado pelos representantes dos países no Eco-92, já com nome de Agenda 21. A idéia de Desenvolvimento Sustentável foi consagrada no ECO-92, sendo entendida como meta a ser atingida pelos países e está presente até os nossos dias. O significado de Desenvolvimento Sustentável é explicado no relatório “Nosso futuro comum”, que pode ser visualizado em COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO (1991, p.46):
O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades.
Ele contém dois conceitos-chave:
O conceito de “necessidades”, sobretudo as necessidades essenciais dos pobres do mundo, que devem receber a máxima prioridade.
A noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organização social impõe ao meio ambiente, impedindo-o de atender às necessidades presentes e futuras.
Portanto, ao se definirem os objetivos do desenvolvimento econômico e social, é preciso levar em conta sua sustentabilidade em todos os países — desenvolvidos ou em desenvolvimento — com economia de mercado ou de planejamento central. Haverá muitas interpretações, mas todas elas terão características comuns e devem derivar de um consenso quanto ao conceito básico de desenvolvimento sustentável e quanto a uma série de estratégias necessárias para sua consecução.
(...) A humanidade é capaz de tornar o desenvolvimento sustentável — de garantir que ele atenda às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem também às suas. O conceito de desenvolvimento sustentável tem, é claro, limites — não limites absolutos, mas limitações impostas pelo estágio atual da tecnologia e da organização social, no tocante aos recursos ambientais, e pela capacidade da biosfera de absorver os efeitos da atividade humana. Mas tanto a tecnologia quanto a organização social podem ser geridas e aprimoradas a fim de proporcionar uma nova era de crescimento econômico. Para a Comissão, a pobreza generalizada já não é inevitável. A pobreza não é apenas um mal em si mesma, mas, para haver um desenvolvimento sustentável, é preciso atender às necessidades básicas de todos e dar a todos a oportunidade de realizar suas aspirações de uma vida melhor. Um mundo onde a pobreza é endêmica estará sempre sujeito a catástrofes, ecológicas ou de outra natureza.

Os ideais do ambientalismo se utilizam o tempo todo ideais do neomalthusianismo, pois se preocupam com a Divisão Internacional do Trabalho (DIT) ao dizer que se deve conter o crescimento econômico e populacional dos países (principalmente os subdesenvolvidos e os emergentes/em desenvolvimento) e se racionalizar a produção. Isto está expresso nos preceitos discutidos no Clube de Roma (cujas idéias estão reunidas no relatório “Os Limites do Crescimento”), na Conferência de Estocolmo de 1972 e na Conferencia de Copenhague em 2009 (que é extremamente conservadora e retoma ideais presentes em “Os Limites do Crescimento” e da Conferência de Estocolmo).
O ideário de “Desenvolvimento Sustentável” tenta superar as contradições ambientais da sociedade capitalista e as contradições dos relatórios elitistas anteriores, mas, na realidade, nunca conseguirão atingir este objetivo, porque não é de sua essência e porque só se preocupam fazer críticas ideológicas (e não estruturais). Por mais que estes ideais tentem ser aprofundados em relatórios da ONU (como o IPCC, o CDB e o IPBES[32]), nunca ficou claro como colocar em prática a “sustentabilidade”. Compreendo que esta nunca será aplicada integralmente em uma sociedade capitalista.
RODRIGUES (2005, p.93) não concorda que “desenvolvimento sustentável” seja um conceito, mas um termo ou “um ideário que oculta as causas e as conseqüências da problemática ambiental”:
O termo “desenvolvimento sustentável” não é um conceito, mas uma idéia que pretende encontrar soluções para problemas de esgotamento, poluição das riquezas naturais, num futuro... Idéia genérica que abstrai a realidade, oculta a complexidade, a reflexividade do modo de produção de mercadorias, cria uma espessa cortina de fumaça sobre a apropriação dos territórios, a existência de classes sociais, dificulta a análise crítica.

Neste mesmo artigo, RODRIGUES (2005, p.96-97) diz que o ideário de Desenvolvimento Sustentável é alienante, pois mantém o modo de produção capitalista e atribui os problemas ambientais aos desvios do “modelo” de cada país. SANTOS (2005, p.148) diz que: “o ambientaIismo seria uma redução, embora assumindo ares de cientificidade em nome da salvaguarda do planeta”, ou seja, fazem uma verdadeira confusão conceitual entre “sistemas técnicos, natureza, sociedade, cultura e moral”. SANTOS (2005, p.149) citará Ana Fani A. Carlos (1994, p.77)[33] para criticar o discurso ecológico:
(...) o discurso ecológico tem substituído o espaço concreto da prática social do vivido, aquele de habitar no sentido amplo... Passa-se do vivido ao abstrato para projetar essa abstração no nível do vivido. Neste sentido, a natureza vira signo, e torna-se estratégica e política.

A sociedade capitalista realiza um deslocamento discursivo de “matérias-primas e energia” para “recursos naturais”. RODRIGUES (2005) não concorda com a idéia de “recursos naturais”, pois caracteriza os elementos da natureza como mercadoria, preferindo utilizar “riqueza natural”[34].
Temos vários equívocos advindos deste ideário de Desenvolvimento Sustentável. Em vez de se falar em classes sociais, se fala em “geração presente” e “geração futura”. A luta de classes vira a luta por direitos individuais. Não dá pra pensar em geração futura sem fazer com que a geração presente se aproprie das riquezas da sociedade. Diz-se que a utilização de “novas tecnologias” irá proporcionar o “desenvolvimento sustentável”, mas não se diz quais são essas “tecnologias adequadas”.
Os Ecos-capitalistas também perceberam que a “sustentabilidade” é um rentável nicho de mercado. Concordo com RODRIGUES (2005, p.100), quando ela diz:
(...) a aceitação do desenvolvimento sustentável implica impor regras de controle, usar novas tecnologias, obter certificados de uso racional de recursos (ISOS), de controle de resíduos e, sobretudo, permitir a continuidade de reprodução ampliada do capital, conferindo-lhes legitimidade para a concorrência com outras empresas “que não contribuem para a preservação do meio ambiente”, não tem o certificado ambiental.

A idéia de Desenvolvimento Sustentável é insustentável, nunca ocorrerá numa sociedade capitalista e o indígena não precisa deste ideário porque isso já faz parte de sua existência. Impossível no capitalismo se desenvolver sem destruir (mantendo as coisas).
As maiorias dos movimentos ambientalistas estão equivocadas em sua crítica, mas muitos deles possuem vínculos estreitos com o modo de produção capitalista, como podemos ver em BLUWOL (2009, p.59-60):
É fácil observar que grande parte dos movimentos ambientalistas não é contra o modo capitalista de produção, e muitos são até parceiros, tendo apoio da chamada iniciativa privada, ou seja, as empresas capitalistas. Isso se dá, pois a principal luta deles é a conservação dos recursos naturais que servem de matéria-prima para estas indústrias. Natureza, para estes movimentos e indústrias, é apenas uma fornecedora de matéria-prima e, portanto, deve-se conservá-la minimamente. (...) Esses movimentos podem ser chamados de “Capitalismo verde”, e são, infelizmente, a esmagadora maioria dos movimentos ditos “ambientalistas” ou “ecológicos”, ao menos dos que possuem acesso ao grande público, principalmente no que diz respeito à veiculação de suas idéias nas grandes mídias, com o apoio financeiro da iniciativa privada ou do próprio governo estatal que, logicamente, também possui seus interesses capitalistas na exploração de seu território e de seus habitantes.

Um dos grandes questionamentos a serem colocados é de que o Desenvolvimento Sustentável e uma relação sustentável entre Homem-Natureza só poderá se realizar em uma sociedade que não seja capitalista. Temos de nos perguntar que tipo de sociedade tem de ser construído para se atingir tal objetivo?
Na escola o professor de geografia tem de levar o aluno a ter tolerância a outros conceitos de natureza, fazendo compreender o conceito de natureza da sociedade capitalista, para este poder criticar e poder superar o conceito e a sociedade capitalista.
A raiz do problema não é somente a dicotomia Homem e Natureza (até porque esta dicotomia é realizada desde o “momento em que o homem se diferenciou da natureza ao ser uma natureza que tomou consciência de si próprio”), mas a relação social, ou seja, o modo de produção capitalista. A crítica tem de ser mais estrutural do que ideológica. Esta passagem de CARVALHO (1986, p.48) explicita e diferencia a crítica estrutural da crítica ideológico (principalmente daquelas alienadas):
(...) De um lado, uns questionam o próprio modo de produção, responsabilizando-o pelo desastre, acenando com novos parâmetros para os cálculos econômicos (que não sejam os do consumismo e acumulação), cobrando dos homens uma nova concepção no trato com a natureza, isto é, um novo arranjo econômico. De outro lado, vêm aqueles que propõem verdadeiras "comunhões" classistas para despertar o "inconsciente ecológico" que dormia no "bicho-homem" e, assim, todo mundo ganha o seu quinhão de responsabilidade num processo secular de destruição de um patrimônio que, para muitos, apenas significa sobrevivência e, para uns poucos, supervivência.

Criar um novo conceito de natureza significa criar uma nova sociedade, pois ao se mudar sociedades, os pensamentos e os conceitos terão de ser modificados.
Os modismos de “Desenvolvimento Sustentável” ou da Agenda 21 existem para despolitizar o debate, estando elas ligadas à agenda política do Banco Mundial. Na Agenda 21 temos a idéia de que a “preservação e a conservação” dos recursos naturais poderão provocar a “inclusão” social. Isto é uma falácia, pois uma “inclusão de fato” somente ocorrerá com a extirpação do modo de produção capitalista.
Somente com o fim da sociedade capitalista poderemos construir um conceito de natureza e homem realmente sustentáveis. Um conceito que mais se coaduna com um tipo de mundo que queremos construir ou preservar.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


MOREIRA (2006) disse que a Biologia, a Ecologia e a Geografia têm tratado o homem exclusivamente como espécie biológica (ou um “complexo físico-químico-biológico”), não levando em conta a especificidade e a complexidade da discussão, desconsiderando o homem como sendo parte integrante da natureza.
Concordo com MOREIRA (2006), quando ele diz que esta visão dicotomizada entre Homem e Natureza na Ciência Geográfica persiste até os nossos dias. Como foi dito, a Física relativista e o pensamento quântico abrem o debate dos rumos do conceito de natureza e da geografia física na Ciência Geográfica.  Temos, portanto, novos paradigmas na Ciência Moderna, que possibilita conceber os conceitos de natureza e sociedade de uma maneira mais unitária.
Portanto, estas reflexões foram necessárias para se pensar num novo conceito de natureza que seja pautada por um método dinâmico e que integre os elementos analíticos. É necessário que se faça uma critica estrutural em relação ao conceito de natureza, a sociedade e as ciências. Criar um novo conceito de natureza significa criar uma nova sociedade, coisa a ser buscada por todos.
A crise ecológica é uma crise da sociedade capitalista e esta só se extinguirá pela extinção do Modo de Produção Capitalista.
Concordo com CARVALHO (2003, p.82) quando ele defende que:
(...) os homens possam ser sujeitos de si mesmos, num mundo onde todos os componentes tenham direito a desenvolver suas alteridades; portanto, bastante diferente daqueles mundos conhecidos, onde a ausência de liberdade e a não satisfação das necessidades transforma-nos em objetos ou sujeitos dos outros.


Portanto, deve-se buscar uma sociedade onde os trabalhadores possam usufruir integralmente os frutos de seu trabalho. A luta por uma conceito de natureza verdadeiramente sustentável necessariamente passará pela crítica estrutural, da superação da sociedade capitalista e a criação de uma sociedade igualitária e justa.


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RODRIGUES, Arlete Moysés. Problemática Ambiental = Agenda Política – espaço, território, classes sociais. In: Boletim Paulista de Geografia da AGB-SP n° 83, São Paulo: Xamã Editora, 2005.
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SMITH, Neil. Desenvolvimento Desigual – natureza, capital e a produção de espaço. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,1988.
TRICART, Jean. Ecodinâmica. Rio de Janeiro: IBGE, Diretoria Técnica e SUPREN, 1977.


[1] Professor de geografia nas redes estadual e municipal de São Paulo. Formado em bacharelado e licenciatura de geografia na PUC-SP (2001-2005). Especialista em ensino de geografia pela PUC-SP (2010-2011). E-mail (Wladimir_tristao@yahoo.com.br). Telefone (9268-5570).
[2] Esta passagem de RATZEL (1914, p.1) foi extraída do artigo de CARVALHO (1999).
[3] Esta frase é creditada para o geógrafo francês Èlisée Reclus (1830-1905) no livro “O Homem e a Terra” (publicado postumamente em 1906), mas creio que esta frase tenha sido originalmente realizada por F. Engels no livro “Dialética da Natureza” (escrito na década de 1870).
[4] As duas passagens de Ratzel foram retiradas do artigo de CARVALHO (1999), estando presentes no livro Antropogeografia (1914), nas páginas 60 e 62.
[5] O conceito de Meio Ambiente aparece inicialmente no livro-manifesto “Silent Spring” (Primavera Silenciosa), de Rachel Carson, considerado como um dos iniciadores do movimento ambientalista.
[7] Holos em grego significa total e inteiro.
[8] Esta passagem de Ratzel retirada do artigo de CARVALHO (1999) reflete sobre as influencias e determinações entre homem-natureza: "Em verdade, na história desta evolução, as plantas influenciaram as plantas, os animais influenciaram os animais, e estes aquelas e vice-versa; mas nenhum outro organismo exerceu uma influência tão ampla e extensa sobre os outros seres como fez o homem, transformando de maneira muito profunda a fisionomia da vida na Terra."
[9] Marx, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1989
[10] Georg Lukács em “As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem. Revista Temas, nº 4. São Paulo, 1978” e “Vários Autores – Conversando com Lukács. Ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1969”.
[11] Idéia contida em CARVALHO (2003, p.16).
[12] A passagem de Ratzel foi retirada do artigo de CARVALHO (1999), estando presente no livro Antropogeografia (1914), nas páginas 91-92.

[13] Idéia também contida em “SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo, Nobel, 1985”.
[14] Idéia também contida em “SANTOS, Milton. Técnica, espaço e tempo. Globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo, Hucitec, 1994, p.16”.
[15] Há 19 milhões de anos os primatas da África evoluirão nos Hominídios, que posteriormente evoluirão nos gorilas (há 6-8 milhões de anos), nos chipanzés e humanos (que tinham um ancestral comum há 5-7 milhões de anos). Há cerca de 3 milhões de anos surgem os “Australopitecus” e pouco depois surgem o “Homos” (primeiramente o “habilis” há 2,6 milhões de anos; depois o “erectos” há 1,8-1,9 milhões de anos; o “neanderthal” há 230 mil anos até 30 mil anos atrás; e por fim o “sapiens” que surgiu há cerca de 200 mil anos atrás).

[16] ISTOÉ (2009, p.37-39).
[17] Segundo MOREIRA (2004-a), a idéia de homem-população tem origem em Malthus (teoria da desproporção do crescimento humano para a produção de alimentos, tendo em vista os limites dos solos agricultáveis na natureza).

[18] Várias Civilizações surgem no Período Neolítico com a Revolução Agrícola, isto há cerca de 10 mil anos atrás. A Grécia Antiga é fundada à 2.000 aC (século XX aC), mas a “Era Pré-Socrática” vai de VII-V aC.

[19] Os 5 primeiros livros do Antigo Testamento (que no judaísmo se chamam Torá e no catolicismo Pentateuco) teriam sido escritos pelo profeta Moisés por volta de 1200 a.C. Os Salmos seriam obra do rei Davi, o autor de Juízes seria o profeta Samuel, e assim por diante. A maioria dos estudiosos acredita que os livros sagrados foram um trabalho coletivo.
[20] Como escreveu Shakespeare: “existe mais coisa entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”.
[21] Segundo MOREIRA (2004-a, p.61), Adam Smith defendia a “Revolução Industrial” como uma ampliação da acumulação do capital, numa fase do capitalismo mais maduro. A idéia de “Revolução Industrial” surge em Smith, mas é uma idéia equivocada, porque a revolução foi dos Modos de Produção (capitalismo nascido das ruínas do feudalismo), ou seja, foi uma revolução das relações sociais, do processo de produção e dos modos de acumulação.

[22] Esta discussão foi levantada por CARVALHO (2003, p.51-55), onde ele destaca também que os princípios socialistas de K. Marx e F. Engels surgem após a Revolução Industrial e antes do livro “Evolução das Espécies” de C. Darwin.
[23] SMITH, Alfred. El concepto de naturaleza em Marx, Ed. Siglo Veintiuno. México, 1976
[24] Seria o Cap. V (“O processo de trabalho”) de “MARX, Karl. O Capital – crítica da economia política (Livro I. vol. I). Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 3ª Ed. 1975”.
[25] Esta constatação sobre Neil Smith é uma anotação de uma aula de Elvio Rodrigues Martins.
[26] Neste sentido, Milton Santos cria os conceitos de “meio natural ou pré-técnico”, “meio técnico” e “meio técnico-científico-informacional”, que já foram definidos no segundo capítulo deste TCC.
[27] Apesar de haver um preconceito em relação à pobreza, Malthus foi um dos primeiros cientistas a relacionar a taxa de mortalidade com salários e a condição de vida das pessoas.
[28] Smith representava os interesses da “burguesia mercantil”, Ricardo representava os interesses da “burguesia industrial” (que teria hegemonia na sociedade) e Malthus representava os interesses da “burguesia rural” (afetada pela burguesia mercantil e industrial).
[29] Na sociedade capitalista, o “exército industrial de reserva” é forjado para o rebaixamento de salários, sendo o “núcleo regente da dinâmica populacional no modo de produção capitalista”. Este exército está ligado ao numero de desempregados, que foram desterritorializados no processo de êxodo rural e que estão desempregados pelo maior número de equipamentos-máquinas que trabalhadores nas empresas. Nas crises do capital o “exército industrial de reserva” é ampliado e os salários rebaixados e nas épocas de recuperação-prosperidade o “exército industrial de reserva” é reduzido e os salários aumentados. No modo de produção capitalista a população é regida nesta lógica.
[30] OLIVEIRA (1985, p.17)
[31] Segundo OLIVEIRA (1985, p.16), Malthus “confiava muito mais no próprio ajustamento entre salários e condições de vida como meio de controlar a expansão da população, e menos na possibilidade de controle e planejamento social dos usos, costumes e tradições.”
[32] IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), CDB (Convenção sobre Diversidade Biológica, assinada, durante a ECO-92) e o IPBES (Painel Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Ecossistema).
[33] CARLOS ANA FANI, A. O meio ambiente urbano e o discurso ecológico. Revista do Departamento de Geografia, n. 8, USP/FFLCH, 1994.
[34] RODRIGUES (2005) reproduz o pensamento da cientista Vandana Shiva, que diz que as riquezas naturais não são contabilizadas na economia de uma maneira correta, pois só se leva em consideração o preço e o valor de mercado, desconsiderando o valor em si (o tempo de formação dos objetos naturais, sua importância ambiental-local, etc).

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