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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

REFLEXÃO do filme “Bye Bye Brasil”


repasso texto que eu fiz.
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 REFLEXÃO do filme “Bye Bye Brasil”

Este filme de 1979 do diretor Cacá Diegues pode ser considerado como um “divisor de águas”, marcando a passagem de um “Brasil Rural” para um “Brasil moderno”, que sinalizava para o desenvolvimento das relações de produção capitalista.
O Brasil estava se modernizando, mas isso não significava que as relações sociais se tornariam mais humanas, pelo contrário, esta modernidade implicava um “capitalismo selvagem”, um “progresso sujo”, que desagregavam famílias e culturas.
Podemos dizer que o Brasil estava dando sinais claros que o “espaço fordista” estava sendo implementado no território brasileiro, cuja implementação começa com Getúlio Vargas (década de 1930), tendo um avanço significativo com Juscelino Kubistchek (1955-60, com o “Plano de Metas”) e com o regime militar (1964-1985, com o “Milagre Brasileiro”).
O filme começa mostrando o cotidiano de um grupo mambembe intitulado de “Caravana Rolidei”, que tinha inicialmente como integrantes os personagens: Lorde Cigano (o cafetão e o “produtor cultural” da caravana), Salomé (dançarina do grupo, fazendo eventualmente “programas” de prostituição) e Andorinha (negro forte e silencioso, que fazia apostas de queda-de-braço, sempre em nome de um retorno financeiro rápido e tranqüilo).
A “Caravana Rolidei” parará em uma cidade no sertão do Nordeste, às margens do Rio Piranhas (localizado no interior dos estados de Paraíba e Rio Grande do Norte) e faz sua apresentação. Nesta cidade conhecem Ciço (um sanfoneiro com “paixão platônica” por Salomé) e sua esposa Dasdô (que estava grávida e daria a luz na Rodovia Transamazônica).
Ciço e Dasdô serão incorporados à trupe, mas as suas saídas da cidade do interior nordestino é um reflexo do que ocorria constantemente na época, que era o intenso fluxo migratório de pessoas de áreas rurais para locais com grande oferta de trabalho e emprego (caso de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Amazônia, etc).
A trupe resolve sair da cidade de Ciço e Dasdô e vão para Maceió (capital de Alagoas), até para fazer o casal de novatos conhecerem o mar. Interessante perceber as mudanças paisagísticas, pois saem do Sertão e vão para a Zona da Mata, sempre cruzando estradas de terra (sinal de pouca infra-estrutura) e muitos caminhões abarrotados de cana-de-açúcar (que até então era a principal atividade econômica da região).
Chegando a Maceió se deparam com uma modernidade muito mais avançada do que na cidade sertaneja do começo do filme, como na poluição atmosférica, as refinarias de açúcar e as muitas “espinhas de peixe” (antenas de televisão). Isto causa um impacto no grupo e faz com que eles saíssem para um lugar mais tranqüilo e isolado.
A “Caravana Rolidei” era moderna somente para as cidades rurais do interior do Brasil, sendo anacrônicas para uma metrópole com uma grande modernidade como Maceió. Ela só tinha sucesso de público nas cidades mais interioranas e não estava se adaptando às mudanças sociais.
Eles resolvem sair de Maceió e param numa cidade do interior do Nordeste que outrora sempre dava muito lucro. Chegando lá eles não conseguem fazer uma apresentação massiva e lucrativa, resolvendo investigar o que estava ocorrendo. Esta cidade estava passando por um processo de modernização patrocinada pelas prefeituras locais. Estava colocando “televisões públicas” no meio da praça, fazendo se modificar rapidamente os gostos de entretenimento dos moradores da cidade. Isto revoltará Lorde Cigano que quebrará a “televisão pública”, fato que forçaria a expulsão destes da cidade.
As apresentações da Rólidei estavam recebendo cada vez menos público e surge uma espécie de critério para a trupe: onde houvesse "espinhas de peixe" (antenas) a féria seria curta e a passagem efêmera.
A televisão pode ser compreendida como sinal de alienação da população, mas também como fator de integração nacional. A integração nacional era um objetivo almejado pela burguesia brasileira, pois isto significaria um desenvolvimento do “espaço fordista” e conseqüentemente uma melhor realização das relações produtivas capitalistas.
O “espaço fordista” subsume um território integrado horizontalmente (as chamadas economias de integração), criando uma rede urbana com pleno acesso, pleno consumo, pleno emprego e plena produção. É um território onde ocorre de fato o “meio técnico científico informacional”, ou seja, a globalização em grandes proporções. É um território da inclusão produtiva e também de exclusão social, as fragmentações espaciais entre as classes sociais fica mais do que evidente.
No Brasil, este “espaço fordista” só se consolidará totalmente durante o segundo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2006-2010). Atualmente temos em nosso território o “espaço pós-fordista ou toyotista”, levando a globalização produtiva da sociedade capitalista às últimas conseqüências, integrando vários locais distantes localmente. A exclusão e a desigualdade serão ainda maiores e mais planejadas.
Voltando ao filme, os integrantes da “Caravana Rolidei” saem desta “cidade moderna hostil” e vão para outra cidade interiorana. Não fazem um sucesso de público e financeiro nesta cidade também, mas não por causa da televisão, mas pela condição de pobreza extrema dos moradores desta cidade. A região passava por uma seca e os moradores estavam rezando para que a sua situação melhorasse (mostrando a importância política e social da religiosidade nesta situação extrema).
Nesta cidade encontrarão Zé da Luz, um solitário artista mambembe que passava filmes para os habitantes das cidades do interior do Brasil. Ele é um idealista e amante do cinema, não cobrando ingresso das pessoas em algumas situações, ou mesmo, aceitando receber objetos e comida como ingresso. Podemos dizer que este personagem foi inserido no filme por Cacá Diegues para fazer uma “homenagem ao cinema”. Apesar de Lorde Cigano ter feito amizade e ter se simpatizado por Zé da Luz, creio que nenhum efeito ideológico e pessoal tenha surtido efeito no líder da trupe mambembe.
No caminho resolvem ir para a cidade de Altamira (localizada às margens do Rio Xingu no estado do Pará), pois lá seria uma possibilidade de o grupo retomar seus lucros. Nesta época, esta cidade estava recebendo um fluxo migratório muito grande de trabalhadores para trabalhar nas mineradoras locais.
Eles pegam a Rodovia Transamazônica que ainda estava em construção em alguns trechos. No meio do caminho nasce a filha de Ciço e Dasdô. A paisagem mudará, saindo do Sertão Nordestino para a Floresta Amazônica. Entretanto, a floresta estava sendo destruída para a implementação da rodovia e dos empreendimentos produtivos locais (tal como pecuária, extração de madeira e mineração).
Em Altamira encontram uma pessoa que oferecia emprego e recebem um tratamento diferenciado em relação à família indígena que tinha sido expulsa de suas terras por grileiros. Nesta cidade, a família indígena fará seus primeiros contatos com a modernidade da sociedade capitalista (como o sorvete, rádio, etc) e acabarão indo trabalhar na mineradora como mão-de-obra barata.
Em um braço-de-ferro, Andorinha perderá o caminhão e todo o dinheiro da “Caravana Rolidei”, forçando estes a tomarem atitudes drásticas. A trupe vai à Belém (no estado do Pará), onde a sensual Salomé começará a se prostituir (sendo cafetinada por Lorde Cigano), o calado Andorinha sairá do grupo (não avisando aonde iria, fato que não preocupou os demais integrantes) e Lorde Cigano começa a levar em consideração a idéia de ir trabalhar numa mineradora. Dasdô quase se prostitui, mas é impedido por Ciço, fato que forçará o desligamento dos dois da caravana e a ida deles para Brasília.
A paisagem que já tinha modificado drasticamente da saída da caravana de Altamira para Belém, se modificará ainda mais chegando ao Cerrado do Planalto Central em Brasília. Em Altamira tínhamos um ambiente rural e caótico. Já na capital paraense temos a visualização de uma metrópole consolidado, com seu porto, comércio abundante, zona boêmia, etc.
Em Brasília Dasdô e Ciço serão atendidos por uma “assistente social” que fala bem das políticas publicas e o crescimento da cidade, mas no fim das contas serão “despejados” na periferia de Brasília, localizado em alguma “cidade satélite”.
O casal agora com a sua filhinha já crescida fará sucesso com uma banda de forró e acabarão se reencontrando com a “Caravana Rolidei”. Estes agora estarão mais modernizados, com caminhão novo, roupagem nova e novos integrantes (algumas mulheres). Lorde Cigano dizem que eles estão modernos somente por ter adicionado a letra Y na palavra ROLIDEY.
Lorde Cigano disse que eles ganharam muito dinheiro fazendo contrabando de minérios para estrangeiros e pediram a reincorporação de Dasdô e Ciço à “Caravana Rolidey”. O casal recusa o convite e o filme terminará com a caravana saindo mais uma vez ao interior (para se apresentar à “índios” no norte do país).
Entendemos que o filme se chama “Bye Bye Brasil”, por mostrar a despedida de um “Brasil rural, arcaico e antigo”, que será substituído por um “Brasil moderno, insensível e capitalista”. As palavras em inglês do título (bye) podem ser compreendidas como uma alegoria desta mudança social, cultural e geográfica brasileira, pois o “americanismo” e a indústria cultural estavam chegando com tudo no Brasil.
Portanto, o filme mostra um período histórico interessante na sociedade brasileira que deve ser estudado e compreendido para a melhor compreensão da realidade vivida atualmente.

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