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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Reflexões do filme: “O Vento será tua herança”


Reflexões do filme: “O Vento será tua herança”.

Wladimir Jansen Ferreira

O filme é inspirado em um caso real, o "Processo do Macaco de Scopes", como foi chamado o caso do Estado do Tennessee contra o professor de biologia John Thomas Scopes, ocorrido na cidade de Dayton em 1925. O professor foi julgado por ensinar a teoria da Evolução de Darwin em uma escola pública. 
Alguns personagens tiveram o nome modificado, caso de Henry Drummond (baseado no advogado Clarence Darrow, interpretado por Spencer Tracy), Matthew Harrison Brady (baseado em Willliam Jenning Bryan, interpretado por Fredric March), o professor Bertram Cates (baseado em John Thomas Scopes, interpretado por Dick York) e o jornalista E. K. Hornbeck (baseado em H. L. Mencken ou Henry Louis, interpretado por Gene Kelly). A cidade também teve o seu nome modificado, de Dayton para Hillsboro.
O professor de Biologia foi preso porque estava ensinando “darwinismo e evolucionismo” aos alunos, infringindo uma lei local que dizia que os funcionários públicos não poderiam questionar o “criacionismo” ou trabalhar com os preceitos darwinistas. Ele é preso e seu caso ganha dimensão nacional, principalmente pela escolha dos polêmicos e famosos advogado de defesa (Henry Drummond) e pelo promotor (Matthew Harrison Brady).
Praticamente a cidade inteira ficou contra o professor e o advogado, pois os moradores possuíam uma cultura que estava sendo questionada, podendo vir a ser destruída ao cair em contradição.
Os “criacionistas” baseavam sua visão de mundo e sua concepção de natureza na tradição judaico-cristã, tanto no Velho, como no Novo Testamento. Os “evolucionistas” eram chamados por estes de pagãos e ateus.
Importante perceber as posturas e reações do Reverendo Jeremiah Brown (interpretado por Claude Akins) e no prefeito Jason Carter (interpretado por Philip Coolidge) que eram fanáticos e intolerantes quanto à outras crenças religiosas e ao conhecimento cientifico dos “evolucionistas”. Importante é destacar a postura igualmente intolerante do jornalista ateu E. K. Hornbeck, parecendo ser fundamentalista e fanáticos por uma outra via. As ações do jornalista, do reverendo e do prefeito eram altamente negativas para a ocasião, “incendiando” a situação e manipulando os sentimentos dos moradores.
No inicio do julgamento, o advogado de defesa (Henry Drummond) pede para ser posto em “pé de igualdade” com o promotor (Matthew Harrison Brady), pois este segundo era tipo como herói de guerra e coronel. Esta igualdade ocorrerá pelas mãos do prefeito Jason Carter e do juiz Mel Coffey (interpretado por Harry Morgan)
Inicialmente a estratégia da defesa era  defender “o direito de ser diferente, de pensar e de ter conhecimento”. Já a estratégia da promotoria foi se utilizar o tempo todo do fanatismo religioso em conjunto com o ódio e a ignorância, chegando a pedir que a defesa “não confunda coisas materiais com realidade espiritual” e que “não se questionasse as verdades da Bíblia Sagrada”. A defesa se defende ao dizer que “deixar a Igreja não significa deixar Deus”.
No segundo dia de julgamento, a defesa tenta trazer cientistas evolucionistas para falar, sendo proibidos erroneamente pelo juiz. O advogado de defesa se revolta com tal situação e quase foi preso por desacato ao juiz. Com a confusão, a seção do dia foi cancelada.
No terceiro dia de julgamento, a estratégia do advogado de defesa foi falar com o promotor. Esta situação é bem irônica, pois “peritos em ciência” não puderam falar e um “perito em Bíblia” pode falar. Aos poucos, o advogado de defesa foi esmorecendo a imagem do promotor ao fazer este cair em contradição.
Inicialmente, o advogado de defesa pergunta se “tudo na Bíblia tem de ser levado ao ‘pé-da-letra’”, questionando as situações: “como um homem dentro de uma Baleia poderia sobreviver”, “como que o Sol poderia ser parado por um ser humano”, “o fato do sexo ser um pecado original e a humanidade ter nascido e espalhado com a procriação de Adão e Eva”, “o fato do planeta Terra ter sido feito em 5 dias, aonde o Sol só teria sido feito no segundo dia (sendo impossível se delimitar o tempo do primeiro dia)”. Depois deste massacre, a seção do dia é encerrada e o promotor vai para sua casa muito abalado, questionando “porque deus estaria sendo julgado”.
O quarto dia do julgamento foi só para se dar o veredicto, que foi unânime, decidindo por considerar o professor Bertram Cates culpado por violar as leis, mas tendo de pagar uma misera multa de U$ 100,00. a promotoria se revolta com o valor e a defesa diz que entrarão com um recurso no Supremo Tribunal Federal para não pagar esta multa.
Depois do veredicto final, o promotor Matthew Harrison Brady tenta ler um texto criacionista, sendo ignorado pelos presentes. Ele enlouquece, tem um infarto do coração e morre no local. Podemos dizer que o promotor enlouquece porque sua cultura foi questionada e quando morre temos uma “alegoria” sinalizando o surgimento de “uma nova era” na cidade e no país, que seria de “não fanatismo religioso”.
Depois da morte de Brady, Hornbeck jocosamente faz planos para o obituário de Brady, usando as palavras que o orador invocara na reunião de orações. “Aquele que perturba sua própria casa herdará o vento". Quando Drummond cita a Bíblia e defende Brady como um grande homem, Hornbeck percebe que o famoso advogado de defesa é um crente e o execra como um hipócrita. Drummond responde que o cinismo do jornalista o deixou sem qualquer tipo de sentimento ou significado.
Depois que Hornbeck vai embora, Drummond embala seus pertences e se despede de Hillsboro, segurando o livro de Charles Darwin e sua Bíblia, lado a lado. Talvez uma outra alegoria, para demonstrar que talvez dê para se conviver com estas duas culturas, ou seja, a tolerância e a alteridade são possíveis.
Nós tivemos no filme um “choque cultural” entre “evolucionismo” e o “criacionismo”. Podemos refletir que a cultura da intolerância e do fanatismo é algo negativo, mas que deve ser respeitada. Aquela comunidade isolada e fechada tem o direito de existir e a existência das discussões evolucionistas foi algo negativo para a cultura hegemônica, ajudando a implodi-la.
Uma postura acertada é defender a tolerância e a alteridade cultural, pensando até na possibilidade de um hibridismo cultural.

11 comentários:

  1. A multa em questão foi revista, quase que no mesmo instante, para "200 pratas".

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    1. Verdade, mas a defesa declara que o cliente não pagará sequer um dolar...

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    2. Não, a multa não foi revista. A multa continuou no valor de 100 dólares, sendo que, a defesa iria recorrer em 30 dias. Duzentos dólares é o valor da fiança, para que o professor não fugisse da cidade sem cumprir suas obrigações legais.

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  2. Muito bom! Assiste ao filme na semana passada e o achei atualíssimo.

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  3. Não assisti o filme para dizer se foi colocada ou não de modo enfático a questão da EUGENIA (vou assistir apenas para comprovar a intuição que tenho que se trata de uma produção é tendenciosa). Também nas suas reflexões sobre o filme não foi levantada a relação crucial entre DARWIN e EUGENIA.
    Não se trata apenas de dizer que a espécie humana veio dos macacos (baluarte dos ateus) ou que foi criada por Deus (fé dos cristãos).

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  4. Se Deus existe, e ele seja todo poderoso, não precisa de nada para fazer tudo. Não precisa de uva para fazer vinho, pode fazer de água mesmo. Assim não precisa do sol para fazer o dia, pois ele é a Luz. É apenas uma questão de fé, certeza sem prova, pois se houver prova, deixa de ser fé.

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    1. Ele fez vinho da água, e sim não precisaremos do sol por termos a Luz Dele!

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  5. Muito bom o filme, acabei de assistir pela Netflix em P&B mais muito show! Muito atual, já agora há políticos proibindo professores de falar de política em sala de aula.Dizendo não à doutrinação nas escolas.

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  6. conviver com fanatismo é foda, não da!

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  7. Creio que pode ser possivel encontrar a versao de 1999 deste filme acima (colorido) no youtube; no mais, gostei desta produçao e tanto do post quanto do blog em geral. Continuem assim, firmes na luta a favor do conhecimento e contem comigo para essa meta ... !!!!!!!

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  8. Para reforçar: o termo fundamentalismo religioso vem deste cristianismo fanático dos anos 1920, norte-americano, que hoje é importado por brasileiros. Portanto, temos tanto fundamentalismo religioso cristão, islâmico, judaico.

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